Opinião
A revitaliza��o de tens�es perigosas
Não é novidade que a diplomacia inverte as coisas de ponta-cabeça. Democracias podem apoiar ditaduras e ditaduras podem financiar libertários, depende dos resultados perseguidos. Jonh Foster Dulles (1888-1959), poderoso secretário de Estado americano, sem rodeios, declarou nos idos de 1950 que ?os Estados Unidos não têm amigos, têm interesses?. Frase que não só continua atual como pode ser aplicada para qualquer país, ontem e hoje. Este é o caso das posições envolvidas no atual imbróglio ucraniano. O que vale são os interesses dos poderosos. E a Casa Branca está dando um show de fazer inveja ao velho Dulles. Washington apoia simultaneamente um golpe de estado (na Ucrânia) e desconhece uma eleição direta (na Crimeia), e sublima o crescimento impressionante dos partidos nazistas no comando político ucraniando pós-golpe. Tudo em nome do isolamento de Moscou. A Rússia, apesar das tradições autoritárias (inclusive anteriores ao período soviético, vide Ivan, Pedro, Catarina...), está jogando com mais habilidade. Evitou o confronto direto no interior da Ucrânia quando da deposição do presidente amigo e optou pela opção ?democrática? do plebiscito na Crimeia ? que é uma República Autônoma, e não um mero Departamento, ou Estado, ligado à Kiev. Na sequência, respondendo à solicitação oficial de reincorporação da península à Federação Russa, fez a proposta de elevação ao status de Estado soberano efetivo. Está aprendendo o jogo de cintura. Mas o fato, inexorável, é que retornam ao cenário mundial as tensões da Guerra Fria, reacendida com a queda de braço explícita entre EUA e Rússia; assim como volta à ribalta o sentimento ocidental antirrusso e a rejeição aos eslavos. Esse perigoso elemento racista ulula não só nas manifestações da parcela pró-ocidental em Kiev, mas começa a ressurgir nos arredores, como nas áreas polonesas que se consideram parte da Ucrânia. Em resumo: velhos fantasmas voltam a assombrar o mundo. E os interesses de uns e de outros teimam em ignorar esse perigo, incentivando ? mais uma vez ? o germe racista. E parece que as ditas democracias ocidentais estão repetindo o mesmo erro cometido nos anos 30, quando apoiavam tudo que fosse contra Moscou...