Opinião
VINTE DE MAR�O DE 1914
Para um homem desprovido de luxos, fica-se a imaginar que festejos gostaria que lhe dedicássemos nas comemorações de seus cem anos. Acostumei-me, desde 1964, a acompanhar as homenagens que lhe eram prestadas, por servidores, nos órgãos que dirigia. Confesso que ia, pela oportunidade de ouvir seus improvisos nos agradecimentos. Palavra fácil, pronúncia correta, timbre de voz agradável, Ib Gatto encantava qualquer plateia. Por isso estou a reviver, cinquenta anos depois, esses momentos de êxtase. Que bom se hoje estivesse presente no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas para agradecer àqueles que lhe vão prestar homenagens. Certamente iria trazer seu nascimento na Rua Boa Vista, a infância na Praça Deodoro, com incursões na Levada, onde capturava seus caranguejos diretamente nas tocas. Falar da bicicleta que não ganhara mas guardava numa publicidade de revista francesa. Lembrar de seu tios, Osório Gatto e José Maria Correia das Neves, que tanto influenciaram na sua formação. E de seus avós maternos, ?o velho João Gatto e d. Jovem?, esteios dos infantes órfãos, Ib e Id, ainda nos primeiros anos de vida e de sua mãe, ?a viúva?, como gostava de chamar d. Eponina. Dos sorvetes que fazia em casa e de que tanto nos falava. Da ida para Salvador, tão jovem, aos quinze anos, sair-se vitorioso no vestibular de Medicina. De como foi atuante no curso médico, liderando vários movimentos culturais na vetusta Faculdade de Medicina da Bahia. Em retornando à terra natal, o que pode fazer pelo social, como o primeiro atendimento de pronto-socorro. Recordaria sua estreia no magistério, atuando no Asilo das Órfãs, atual Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho e no Colégio do Santíssimo Sacramento. E discorreria sobre as inúmeras realizações já tão cantadas de escolas e hospitais. Depois do pronunciamento, tanto poderia brindar seu sucesso com um excelente vinho francês, como com uma bela cerveja estupidamente gelada. Saborear um caviar, um foie-gras, como refestelar-se com uma supimpa sururuzada. Com sua simplicidade nata, amoldava-se a qualquer ambiente ou situação. Sua ausência será compensada pela presença de amigos que nos ajudarão a perpetuar seus feitos. A nós, seus familiares, só resta o sentimento de gratidão pelo legado de honradez, arrojo, cultura e, acima de tudo, de simplicidade, deixado pelo homem que sempre esteve à frente de seu tempo.