Opinião
PAZ E SOSSEGO
?A minha alma está armada e apontada para a cara do sossego?. A música do grupo O Rappa que tanto toca nas rádios brasileiras exorta a paz utilizando a máxima policial de que a arma armada está apontada para a cara do suspeito. E são milhões de suspeitos num país dominado pela violência, com uma polícia ineficaz, o sistema judiciário lento (leito da impunidade) e com a população assumindo a atitude bárbara de fazer justiça com as próprias mãos ? diariamente, há relatos de linchamentos, geralmente praticados contra jovens negros pobres. A pergunta que se faz agora é: em que momento perdemos o rumo e mergulhamos no pântano do desassossego? Há alguns anos, Maceió era conhecida como a ?cidade sorriso?. No início dos anos 90, turistas vinham para cá à procura de belas praias, paz e... sossego. As praias continuam belas, mas o sossego se foi. No último domingo, a Rede Globo exibiu matéria sobre a cidade mais violenta do mundo, San Pedro Sula, em Honduras. E no ranking dos lugares mais tenebrosos para viver no planeta aparece a capital de Alagoas, em terceiro lugar. A reportagem sobre a nossa desgraça está no forno e vai ser servida em breve. Quando percorremos ruas e estradas deste estado maravilhoso, ainda aclamado como o ?paraíso das águas?, não identificamos, de imediato, sinais que nos levem a concluir que aqui os homicídios viraram rotina, que a violência imiscuiu-se de tal modo entre nós que o mal se tornou banal. As pessoas ainda são cordiais, solidárias, mas temerosas e, por vezes, tristes, como que a procura de algo ou alguém que possam leva-las outra vez a sorrir. Algumas se voltam para a religião, outras se fecham em grades e se isolam do mundo violento das ruas e avenidas. Na mesma música do Rappa, há um trecho que diz: ?As grades do condomínio/ são pra trazer proteção/ mas também trazem a dúvida/ se é você que tá nessa prisão?. Acabamos nos tornando prisioneiros e carcereiros de nós mesmo; armamos nossa alma contra nosso íntimo. É necessário desarmarmos nossos espíritos, procurar sossego, não autoprisão, justiça, não vingança, respeito e consideração, não bajulação e subserviência. Devemos iniciar essa mudança em casa e espalhá-la pelas ruas. Vamos ouvir mais, ensinar mais, ajudar mais. Vamos viver melhor, votar melhor e não transgredir. Muitas vezes nos indignamos com um grande crime enquanto furamos filas e ocupamos vagas de deficientes. Só assim poderemos voltar nossa alma para o sossego.