Opinião
O CENTEN�RIO DE UM DESBRAVADOR
Marie Curie (1867-1934) foi a primeira mulher a ganhar dois prêmios Nobel: um em física, pela descoberta da radioatividade em 1903, e outro em química, em 1911, pelas descobertas dos elementos químicos rádio e polônio. Marie Curie, embora polonesa, é a única mulher cujo corpo é velado no Panteão de Paris, junto aos maiores heróis franceses. No início do século 20, o rádio seria o primeiro elemento radioativo usado contra o câncer, principalmente naqueles casos mais difíceis, quando a cirurgia já não tinha como atuar. Quando iniciei o exercício da radioterapia na Santa Casa de Maceió, no final de 1975, início de 1976, o rádio, associado ao cobalto, ainda era o principal tratamento contra câncer de colo do útero, o mais incidente entre as mulheres. O elemento radioativo rádio era extremamente efetivo, e ? embora nos contaminasse com um alto grau de exposição à radiação ionizante em sua manipulação ? foi responsável pela recuperação de centenas de pacientes cancerosas. O rádio foi trazido da França e introduzido na Santa Casa no início dos anos 1950 pelo dr. Ib Gatto, quando também trouxe um grupo de luminares da Fundação Curie, de Paris, para histórico evento científico, quando o câncer passou a ser a sua prioridade principal e origem da sigla então adotada pela instituição: Hospital de Câncer. Por seguidos anos, convivi com o dr. Ib Gatto no Hospital do Açúcar, onde trabalhei vários anos. Ele era o diretor médico e apreciava receber colegas para um papo descontraído após o almoço. Ali, encontravam-se rotineiramente: Roberto Jackson, Rodrigo Ramalho, Everaldo Lemos, Moacir Andrade, Flávio Loureiro e outros prezados colegas que a ingrata memória me subtrai. Além de todas as suas grandes realizações em áreas tão diversas como saúde, educação e planejamento, entre outras, o dr. Ib era, como Diderot, um ser enciclopédico, detentor de vasta e abrangente cultura, raramente encontrada em apenas uma pessoa. Acrescente-se, ainda, sua invulgar capacidade de enxergar à frente e planejar para o futuro: hoje, passados mais de 60 anos, a Santa Casa de Misericórdia de Maceió reafirma como prioridade, em seu Planejamento Estratégico, o câncer como meta prioritária em seus cuidados. São, portanto, justas, as homenagens ao dr. Ib Gatto Falcão.