Opinião
Cinzas
O incêndio que destruiu, na noite desse domingo, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, é mais uma amostra da pouca atenção que o poder público brasileiro dedica à sua cultura e à sua história. Havia muito tempo que se temia uma tragédia como essa. O prédio, bicentenário, estava deteriorado e não possuía nenhum sistema de proteção contra incêndios. Por falta de manutenção, muitas alas estavam fechadas ao público. Enquanto isso, as verbas minguavam ano a ano, e um recurso especial para sua recuperação não chegou a tempo por causa dos entraves burocráticos. Mesmo com um acervo de 20 milhões de itens, o Museu Nacional custava muito pouco para o governo federal, principalmente se compararmos seus custos com o de outros órgãos. De acordo com levantamento da ONG Contas Abertas, os R$ 268,4 mil gastos pelo museu em 2018, até agora, equivalem a menos de 15 minutos de gastos do Congresso Nacional em 2017. Especializado em história natural e mais antigo centro de ciência do País, o Museu Nacional ? outrora residência oficial da família real brasileira ? completou 200 anos em junho. Seu acervo tem perfil acadêmico e científico, com coleções focadas em paleontologia, antropologia e etnologia biológica. O Museu Nacional não era apenas um lugar de visitação, mas também era um espaço de estudo, de pesquisa, vinculado a uma universidade federal, que sobrevivia com parcos recursos federais. Agora, anos e anos de trabalho de cientistas viraram cinzas. Em outros países, é comum pessoas muito ricas doarem dinheiro para museus, ou por causa de interesses culturais ou de olho nos incentivos ficais. No Brasil, infelizmente, não há incentivo a isso, nem mesmo uma cultura de doação a museus. Enquanto isso, outros museus espalhados pelo País sofrem do mesmo problema. Em Alagoas, não é diferente, como mostra reportagem publicada na edição de hoje da Gazeta. Fisicamente, o prédio do Museu Nacional pode até ser restaurado, pois se trata de uma estrutura forte. A maior parte do acervo, porém, foi consumida pelas chamas e não há como recuperar. É preciso que toda a comoção gerada por essa tragédia resulte numa nova maneira de tratar nosso patrimônio histórico, artístico e cultural.