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Opinião

DO KOSOVO � CRIMEIA

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A população da península da Crimeia, situada na costa setentrional do Mar Negro, decidiu há poucos dias, via plebiscito, declarar total independência em relação à Ucrânia, sob regime de República Autônoma, e passar a fazer parte do território da Rússia. Com essa decisão, ela volta ao status quo implantado a partir de 1783 com a vitória dos russos sobre o império otomano. Cerca de 60% da população peninsular são de origem russa e falam o idioma do grande poeta Vladimir Maiakovski. Em 1954, o regime soviético anexou a Crimeia à Ucrânia. O gesto nunca agradou aos russos, continentais ou peninsulares, e criou um sentimento de latente inconformismo entre a maioria étnica russa e as minorias ucraniana e tártara. Agora em fevereiro, com a ascensão da ultradireita ao poder na Ucrânia, graças a um golpe de Estado que rasgou a Constituição e depôs o presidente Viktor Yanoukovich, bastante popular na Crimeia, o clima degenerou em atos de beligerância explícita. A primeira medida do novo governo ucraniano foi proibir o ensino da língua russa no território do país. A provocação, desnecessária e atentatória à cultura linguística do povo, dava o tom da disposição do novo governo em relação à Rússia, que se opôs ao golpe, patrocinado por Estados Unidos e União Europeia. Em ato de resistência, o parlamento da Crimeia convocou plebiscito para decidir o destino da República Autônoma: continuar ligada à Ucrânia, dominada por fanáticos de direita e neonazistas, ou reintegrar-se à Rússia, isto é, voltar ao seio da pátria-mãe. O resultado é de todos conhecido: a segunda opção ganhou com mais de 90% dos votos. Estranha é a reação da chamada ?comunidade internacional?, um grupo de países ocidentais submisso às ordens da Casa Branca. Essa entidade etérea se manifestou furiosamente contra o plebiscito. Os Estados Unidos, logo após o resultado, estrebuchou: ?É inconstitucional?! E o golpe, que Tio Sam e Europa financiaram, foi legal? Como se pode exigir respeito à Constituição quando se é o primeiro a encorajar um golpe de Estado por interesses, principalmente, econômicos e militares? A comunidade internacional não teve o menor pudor em apoiar o povo kosovar, de etnia predominantemente albanesa, em 2008, na constituição de um Estado independente da Sérvia. A mesma comunidade internacional que apoiou a independência do Kosovo, contrariando diversas nações, e patrocinou o golpe fascistoide na Ucrânia, condena a decisão legítima do povo livre da Crimeia, como se fosse a única e grande intérprete do direito internacional.

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