Opinião
UMA VIDA QUE N�O NOS PERTENCE
Muitas vezes as pessoas perguntam sobre o celibato quando descobrem algum padre à sua frente, associando-o somente ao fato da sexualidade. Contudo, quando alguém se consagra a Deus de forma celibatária, torna-se um cidadão do céu aqui na terra, consequentemente, um estrangeiro, tendo uma vida que não mais o pertence. A pessoa pode dizer que é ?totalmente de Deus?, com um coração indiviso, pois não o divide com nenhuma outra situação, lugar, objeto ou pessoa. Pode dedicar-se completamente ao Reino dos céus, e isso lhe confere uma liberdade de ações que tornam o ministério um verdadeiro dom para os outros, para todos. Tornei-me padre e fui designado pelo arcebispo a morar em uma cidade chamada Porto de Pedras, no Litoral Norte do nosso estado. Ainda como seminarista, conheci Japaratinga e Porto Calvo, mas nunca havia sequer entrado na região portopedrense. A primeira vez que isto aconteceu foi no dia 13 de maio do ano passado, carregando comigo toda a bagagem que possuía, para morar em definitivo naquele lugar. Sem nunca ter estado na cidade, passei a ser seu cidadão, somente porque faz parte do plano divino na minha vida. Logo mais, acolhi um diácono transitório que veio me ajudar no serviço pastoral. Homem de Deus, com tantas qualidades, adaptou-se com facilidade à nova vida e desenvolveu um trabalho belíssimo e humano com as pessoas. Passado quase um ano, chegou a notícia de sua transferência. Amanhã, irá para a cidade de Viçosa, ali morar e colaborar com o padre na missão de evangelização de Chã Preta. Sua saída me fez refletir sobre o quanto a vida daquele que se consagra não mais o pertence. Fica inteiramente à disposição, a ponto de poder estar aqui em um momento e acolá em outro. Isso rapidamente, numa entrega que só pode ser entendida sob um prisma divino. Acabada sua missão, agora pode iniciar outra. Aos quarenta anos de idade, o diácono entrega-se à nova causa e, assim, de forma deliberada, assume o trabalho que lhe será confiado. Pode parecer loucura para alguns, mas a oferta total de si mesmo é um dos dons mais presentes no celibato. Somos todos de Deus, e, por isso, podemos ir conforme seus desígnios, sem amarra nenhuma. Isto é ter uma vida ofertada. Não há mais volta! Pertence na totalidade a Deus.