Opinião
1964, O BRASIL E A R�SSIA
Algumas ideias juvenis ficam como engavetadas em um limbo e anos depois, por um motivo, como os aromas de Proust o faziam, algo nos remete ao passado. Uma bem idiota era a de que existia alguma coisa muito forte e em comum entre o povo brasileiro e o povo russo, o que um dia os uniria. Isso me surgiu pelas leituras de alguns autores russos, principalmente, após Almas Mortas, de Gogol,onde a patifaria dos senhores e autoridades, as farras dos mujiques regadas à cachoeiras de vodka e o bom humor, reinante entre a maioria de deserdados retratados naquelas páginas,achava eu, aproximava povos tão distantes geográfica e etnicamente. Daí, veio o golpe militar de 1964, a repressão aos estudantes e a perseguição à esquerda; a morte do Edson Luis no Calabouço; o jornalzinho panfletário no Moreira e Silva; as escutas noturnas das rádios de Moscou, de Praga e da Albânia, que alardeavam o paraíso socialista e a identificação a cada dia parecia-me mais óbvia e a futura aproximação, inevitável. Somava ainda que os amigos que gostavam de ler, de cinema de arte, os menos alienados,eram de esquerda e abnegadamente, almejavam um futuro melhor para a humanidade. Essas lembranças me afloraram agora com os 50 anos do golpe militar de 1964 e a crise entre a Rússia e a Ucrânia. Depois, o curso de Medicina me envolveu tanto que isso tudo passou para um plano secundário. Veio a queda do muro de Berlim. Hoje, alguns daqueles amigos adolescentes continuam de esquerda, e eu os respeito muito. Acredito que perseguiam um mundo mais humano e com menos desigualdades. Imagino que não aspiravam uma ditadura do proletariado, selvagem e sanguinária. É possível que entre as suas inúmeras leituras, não tenham incluído Freud e as vilanias do caráter humano. Assim, poderiam, talvez, conjecturar, que nenhuma ditadura, poderia ser melhor que uma democracia, mesmo capenga. Como agora podemos ver no Brasil, onde um partido de esquerda, que alardeava, mudaria radicalmente a forma de fazer política no Brasil, a cada dia se mostra mais parecido com os outros de centro ou de direita que o precederam, infelizmente, no que eles tinham de pior. Acredito que os melhores ideais humanitários continuam preciosos e precisam ser perseguidos pelos bem intencionados, preferencialmente, sem vínculos ideológicos, a não ser o emintemente democrático.