Opinião
Um 1� de abril que durou duas d�cadas
Há exatos 50 anos, em 1º de abril de 1964, confirmava-se um golpe de Estado no Brasil. O assalto ao poder não poderia ser considerado uma grande surpresa, pois a subversão contra as decisões das urnas já era acalentada desde uma década atrás, sendo frustrada em 1954 por conta do suicídio do então presidente Getúlio Vargas às vésperas de sua deposição. O presidente eleito em 1955, Juscelino Kubitschek, sofreu uma sublevação militar logo no início de seu mandato, mas conseguiu debelá-la, isto sem contar com o fato de que só pôde tomar posse graças a uma ação preventiva organizada pelo general Lott. A eleição de 1960 aliviou a pressão golpista, pois Jânio era tido como aliado, mas sua inopinada renúncia fez aflorar os estresses acumulados desde Vargas com a inevitabilidade democrática do vice-presidente João Goulart assumir o posto. Um meio-golpe engendrado por militares e civis bloqueou a posse legítima do vice-presidente, tendo como resposta uma manobra política que garantiu uma sobrevida à democracia: o parlamentarismo. Tancredo Neves foi o primeiro primeiro-ministro republicano no Brasil, em 1961, garantindo a posse de João Goulart; em 1963, um plebiscito devolveu o presidencialismo; Jango passa a ser um presidente marcado para ser golpeado. Muitas lideranças civis endossaram o golpe acreditando que este seria breve, os militares coadjuvantes e inclusive seria mantido o calendário eleitoral, que determinava votação presidencial em 1965. JK, novamente favorito, foi cassado sem delongas e as eleições, adiadas sine die, mas os golpistas não pararam por aí. Muitos líderes políticos que apoiaram e articulam o golpe, como Carlos Lacerda, foram rapidamente traídos e igualmente cassados. O regime militar se instalou para ficar. Foram 20 anos. Uma dura lição que não pode ser esquecida. Além dos horrores daqueles anos de chumbo, cuja verdade total ainda está para vir à tona, os ensinamentos da história devem também resgatar e preservar os exemplos de políticos que, militando nas duas siglas inventadas em 1964, conseguiram evitar o mal maior e mantiveram acesa a esperança do retorno da democracia. Essas lições são extremamente valiosas, especialmente na atual conjuntura ? repleta de velhos fantasmas cinquentenários, ou mais velhos ainda.