Opinião
O QUE VOC� FARIA SE VIVESSE NO S�CULO XIX?
A vitória no Oscar do filme 12 Anos de Escravidão trouxe mais uma vez ao centro do debate o maior dos pecados da humanidade. O tema é inesgotável e no rastro da película vieram grandes ?descobertas? para o grande público. Muito parecida, a história do abolicionista Baiano Luiz Gama foi alardeada como mais interessante e mirabolante que a do escravo americano e deve virar filme e mini-série em breve. A Associação Walk Free fez um quadro da escravidão nos dias de hoje. Ela continua existindo, invencível, em países como o Haiti, e em números tão inacreditáveis, com 14 milhões, só na Índia. Estamos falando de escravos de verdade, vendidos e aprisionados com correntes, e não o tal trabalho análogo à escravidão. Chamar um pedreiro que dorme em alojamento insalubre de escravo é um desrespeito aos nossos antepassados que sofreram nos troncos. Quem assistiu ?12 Anos de Escravidão? dificilmente discordará. Lembrou-se também que apesar de tê-la praticado em escala industrial, a civilização ocidental não inventou a escravidão, que sempre existiu, mas foi a única a inventar a abolição. O fim da escravatura é o momento mais importante da história da humanidade e pode ser apreciada no filme ?Jornada pela Liberdade?. Mas acredito que a melhor forma de aproveitar esse momento de reflexão é cada um de nós parar e se perguntar: O que eu faria se vivesse no Brasil do século XIX? Quando deparada com essa possibilidade, a maioria se coloca em tribunais e parlamentos condenando o regime, ou comprando a liberdade para o maior número de cativos possível. Todos são heróis na fantasia, independente da cor, mas é inevitável pensar que quem tem a pele branca estaria fazendo um feito ainda mais admirável. Muitas vezes nos esquecemos, mas no presente ainda existe muito espaço para o heroísmo. Milhões de homossexuais sofrem com a violência e o preconceito diariamente no Brasil. Em mais de 80 países do mundo a homossexualidade dá cadeia. Em Uganda é punido com prisão perpétua. No Irã, Arábia Saudita, Iêmen, Mauritânia e Sudão, com pena de morte. Um heterossexual que se posiciona firmemente contra a homofobia hoje será lembrado orgulhosamente por seus netos da mesma forma como admiramos os abolicionistas do passado. Se você acolhe o preconceito gay dos dias atuais, eu pergunto: transportado magicamente para 1810, você aceitaria ter escravos? É a mesma coisa, só muda o século.