Opinião
Os desafios do Leste Europeu
Em 1991, apenas dois anos depois da demolição do muro de Berlim, sem maiores sobressaltos, a não ser uma patética tentativa de contragolpe de Estado, ruiu pacificamente a até então temida União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Embalada pela euforia antissoviética, tanto a mídia quanto a intelligentsia capitalistas passaram a considerar que toda a população da ex-URSS estaria igualmente eufórica para eliminar todos os vestígios dos tempos socialistas e se ocidentalizar de vez, repudiando suas raízes eslavas. Recentemente, as rebeliões anti-Rússia ocorridas na Ucrânia alimentaram a mídia, e analistas apressados, no sentido de decretar que aquele movimento seria uma expressão da imensa maioria dos ucranianos, senão a própria unanimidade. Duplo erro. Falharam ao tentar esconder o caráter direitista, abertamente neonazista, que animavam as forças mais atuantes naqueles dias de fúria nas ruas de Kiev; e erraram ao considerar como favas contadas a supremacia dos revoltosos. Para esses teóricos do ?mundo livre?, as características culturais, laços econômicos, línguas e tradições eslavas seriam ?amarras com a Rússia? e não profundas raízes, típicas daqueles povos e bem mais robustas que o suposto pela vã filosofia de plantão. Como consequência direta dessas mancadas, os Estados Unidos e seus aliados europeus foram surpreendidos com a rápida resposta da parcela que se assume eslava na região. A primeira ?bola nas costas?, como os adeptos do jargão esportivo gostam de dizer, foi a reunificação da Crimeia e Rússia ? inquestionavelmente democrática. As derrapadas subsequentes estão sendo vistas quando da expansão dos movimentos de afirmação eslava que se multiplicam com força em toda região leste da Ucrânia. Perplexos, os dirigentes e diplomatas ocidentais não conseguem responder a essa onda que pode, efetivamente, implodir a plurinacional Ucrânia e se espalhar por várias outras áreas orientais da Europa. Essa histórica incapacidade política de se entender o Leste Europeu, que levou a erros como o recente apoio incondicional aos golpistas de Kiev, pode conduzir a desastres reais de grandes proporções. Menosprezar os eslavos pode ser um erro fatal, como a história já revelou mais de uma vez.