Opinião
ENTRE O DOCE E O AMARGO DA VIDA
Somos de uma geração bem interiorana, nascidos numa cidadezinha pequena cercada de morros e serras enormes que bem descrevem geograficamente a beleza do lugar. Ali no Sertão castigado pela seca impiedosa e aquecido ainda mais pelo reflexo do sol iluminando as pedras no alto, ao meio-dia em pino elevando a temperatura acima dos 40 graus. Dizem os amigos que se colocar um ovo na calçada, em Pão de Açúcar, vira fritura. Vivi uma infância que se pode dizer doce, serena, alegre, sem traumas. Meu pai era um homem tão simples quanto aquelas ruas estreitas e praças sombreadas pelos frondosos tamarineiros que, em 1859, fizeram sombras para d. Pedro II, voltados para as águas cristalinas do Velho Chico. O que mais o filho de um exemplar servidor público poderia querer para ser feliz se não a liberdade, correr, brincar, jogar bola e frequentar a escola pública, ir à missa aos domingos? No HD do computador cerebral, depois de tantas décadas, é impossível apagar professoras como as irmãs Francelina (Mindoca) e Clarice Alvim alfabetizando com disciplina e a palmatória sobre a mesa para esquentar as mãos dos relaxados. O primário orientado por educadoras abnegadas que ensinavam pelo prazer de ensinar. Mestras como Carmelita Machado, Maria Tavares e Ivanise Duarte, apenas lembrando algumas dessas mulheres maravilhas que encaminharam tantos jovens para o futuro. Esse foi o lado doce da vida de meninos que, nascidos em berço pobre, conseguiram frequentar dignamente a escola do governo. Molecada que nunca sentiu o dissabor da violência invadindo o seu espaço. Que não conheceu o cheiro do craque rondando os portões do grupo escolar e nem outras crianças marginais roubando-lhes a ?xô-boi? ou o sapatinho que carregavam nos pés comprado com sacrifício pelos pais. Essa gurizada não sentia o constrangimento de ter que tomar a benção a novos padrastos ou madrastas a cada lua cheia, porque em geral a relação da família era duradoura. O lado amargo da vida sobrou para os pais deste século visivelmente angustiados, cheios de dúvidas sem saberem como agir diante de tantas incertezas para desempenharem o papel de educar os filhos pela falência do modelo educacional do País, onde a escola particular é vista como uma pequena e única válvula de escape.