Opinião
50 ANOS DEPOIS, O BRASIL BUSCA A DEMOCRACIA
Entre 31 de março e primeiro de abril de 1964, o Brasil acordou com um golpe militar. Em sua pequena história de formação democrática, a população testemunha tanques ocupando as ruas, silenciando os anseios de um país democrático, com distribuição de riqueza, com educação, saúde, reforma agrária, demarcação dos territórios e liberdade de imprensa. Olhando pelo retrovisor os 50 anos depois, vê-se o que significou de atraso na construção da cidadania! Na prática, foi arrancada de duas gerações a possibilidade de participação política e de uma consciência crítica. Enquanto alguns líderes e intelectuais foram assassinados ou exilados, foi imposto o cerco aos que ficaram, implantando a mordaça em uns e contando com a conivência de outros. Nos 21 anos de ditadura militar, o desenvolvimento retrocedeu, a educação paralisou, a formação sucumbiu, os jovens se embruteceram e os adultos se desencantaram com a vida e com o mundo. Com a sociedade reprimida e encolhida, a baioneta e o coturno comandaram os destinos do País. Ainda hoje é possível registrar as marcas da violência, da corrupção, do desvio do dinheiro público em prédios inacabados e empresas falidas. Para manter o controle, os militares se infiltraram por todos os lugares, no trabalho, nos sindicatos, nas empresas, nas faculdades e até em seminário de padres. Só sabe o que foi isso quem vivenciou; saber o que significou a opressão de uma ditadura, civil ou militar. As crianças e os jovens só aprendem a marchar e dizer amém. Uma década depois, a população, asfixiada, começou a se movimentar igual a uma panela de pressão no ponto de explodir. Vieram as mobilizações das Diretas Já e as das eleições para governador, deputado e senador. Instalou-se o Congresso Constituinte, culminando com a Constituição Federal de 1998. Com a participação popular, a sociedade brasileira começa acordar para as conquistas dos direitos sociais. Ficou o legado da ditadura militar implantado em uma população massificada, acomodada e reacionária, com uma classe alta sonhando com o paraíso fiscal e uma classe média narcisista, olhando para o próprio umbigo. Juntando-se à crise mundial, o Brasil ainda sai aos poucos do atoleiro, da truculência e da ignorância da herança maldita ditatorial! Como todos estão no aprendizado, quem sabe, as futuras gerações possam gozar das bases postas pelas gerações que agora estão lutando por um mundo mais igualitário e justo. Os agentes públicos bem intencionados e fragmentos da sociedade organizada estão construindo lentamente um Brasil melhor, com menor desigualdade social, econômica, política, de gênero e étnica.