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Muito mais que cem anos de sucesso, sem solid�o

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Na véspera da Sexta-feira da Paixão, morreu um dos mais expressivos escritores contemporâneos, o colombiano Gabriel García Márquez. Aos 87 anos muito bem vividos, o autor de Cem Anos de Solidão despediu-se de uma existência cercada de incontáveis admiradores em todo o mundo. Ganhador, com toda justiça, do Nobel da Literatura em 1982, o escritor soube como ninguém fundir sua extraordinária prosa com as ancestrais fórmulas das histórias fantásticas que fazem parte da tradição oral latina. Principal escritor do estilo ?realismo fantástico?, é por muitos tido como seu criador, embora manifestações desse tipo de construção literária possam ser facilmente identificadas desde o início do século 20 em vários países da América Latina. Alguns dos traços característicos desse estilo mágico podem ser percebidos facilmente na coletânea Alexandre e Outros Heróis, obra póstuma de Graciliano Ramos (morto em 1953) publicada em 1962. Mas, se não foi o criador, Gabriel García Márquez é o reinventor e maior dos disseminadores do realismo fantástico. Sua obra-prima nesse caminho é Cem Anos de Solidão, cuja primeira edição saiu às ruas em 1967, republicada incessantemente desde então. As vendas totais desse livro, ao longo dessas décadas, são estimadas em 30 milhões de exemplares. Também foi um jornalista atuante, repórter atilado e instigante, dotado de visão universal. Trabalhou em muitas redações, do México à Espanha, passando por Cuba e pela própria Colômbia. Foi um homem de seu tempo, um cidadão do mundo. Firme em suas convicções, jamais aceitou as pressões (inúmeras) para abandonar suas simpatias à esquerda. Militante sem partido nem tendência definida, foi integralmente um defensor das transformações sociais radicais (e/ou amenas) e chegou a desempenhar o papel de emissário secreto entre Havana e Washington, conduzindo um relatório reservado de Fidel Castro para Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos, em 1997. O grande colombiano representará, para sempre, o talento e a arte literária da América Latina. Como uma das estrelas mais brilhantes da constelação cultural do Novo Mundo, irradiará perenemente a magia das letras das Américas.

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