Opinião
UMA OBRA INESQUEC�VEL
Na maioria das Semanas Santas, eu releio um livro da escritora Sandra Cavalcanti com quem mantive cordial amizade, através de meu irmão Rui Medeiros. Sandra era católica praticante e mantinha uma autodefinição: sustentava a tese de que era uma católica na política e não uma política católica. A diferença é sutil mas define bem a personalidade dessa extraordinária escritora. A obra Os arquivos de Deus é uma aventura virtual nos tempos de Jesus. Uma mensagem cristã. Na época, ela participava da Câmara dos Deputados e era uma das mais ferrenhas vozes contrárias ao divórcio, assunto em pauta na década de 1990. Conta-se que o companheiro da primeira fila dos contrários ao divórcio, ao lado de Sandra, era o deputado Adroaldo Mesquita (RS). Um dos adversários tentando ridicularizar o deputado gaúcho saiu-se com essa: deputado, seu nome não devia ser Adroaldo Mesquita. Mesquita lembra Maomé. Seu nome devia ser Adroaldo Catedral pela sua exagerada religiosidade. O plenário riu a bandeiras despregadas. O deputado Padre Arruda Câmara, pernambucano, orador invejável, era outro destaque na época, na defesa de postulados cristãos. Na Câmara pontifica Carlos Lacerda. De certa feita fui dormir ouvindo Lacerda e acordei, liguei a televisão e ele continuava falando. Claro que a legislação eleitoral era outra e permitia esse exagero, mas Lacerda era assim. As pessoas não se contam pelo número e sim pela qualidade. E Lacerda era um gênio comparado às pessoas comuns. A Câmara Federal funcionava no Rio de Janeiro e era palco de grandes debates, de extraordinários oradores. O povo afluía as suas galerias e apoiava ou vaiava de acordo com suas crenças. Jamais vi as galerias serem esvaziadas por manifestações de apoio ou de desaprovação. Sandra Cavalcanti, deputada estadual pela Guanabara em 1960, licenciou-se a pedido do governador Carlos Lacerda, que a nomeou secretária de Serviços Sociais. Sua passagem pelo cargo foi ruidosa: os antilacerdistas acusavam o governo de remover favelas sem nenhum cuidado para com o bem-estar social dos atingidos, preocupando-se apenas em ?higienizar? os morros da zona sul, área nobre da cidade-estado. Uma católica na política e não uma política católica. Guardo de Sandra a lembrança de uma mulher extraordinária, digna de respeito e admiração.