Opinião
INCIDENTES PITORESCOS DE VIAGENS
Transcorria sem novidades o cruzeiro pelas ilhas do Caribe, lado espanhol. As previsões dos agentes de viagens nas belas paisagens do roteiro se confirmavam seguidamente, inclusive com o azul do céu se confundindo com o azul do mar, na genial inspiração de um misterioso artista. Ao longo da viagem, vez em quando, o navio ancorava em algum porto e os alegres turistas desciam à terra no azáfama de comprar ?recuerdos?, exaustivamente oferecidos pelos nativos. Às vezes, não havia porto que permitisse calado suficiente para a atracação. Foi o caso da visita a Cozumel. O navio fez a ancoragem bem longe da costa e era necessário fazer o transbordo para uma embarcação auxiliar. Esse barco, com dois pavimentos, um dos maiores para esse tipo de serviço, oferecia relativo conforto, com poltronas acolchoadas, sanitários limpíssimos, equipamentos completos de salvamento, de maneira que inspirava boa sensação de segurança. Era aproximadamente meio-dia, e uma rajada de vento frio trazia o prenúncio de um violento temporal, que desabaria a qualquer momento. O desembarque foi feito com alguma dificuldade e o barco partiu em meio a uma tempestade. Era o começo de uma odisseia. Completamente lotada, a pequena embarcação jogava violentamente e os primeiros gritos e choros compulsivos de alguns passageiros, compunham um cenário macabro de terror. Vômitos sucessivos se misturavam ao ribombar dos trovões, e por alguns instantes, o dia se fez noite e o tombadilho da embarcação era uma sujeira só. Não havia alternativa, tínhamos que prosseguir, já estávamos a meio caminho entre o navio e a praia, ponto de desembarque. No embate das ondas com o casco da escuna, cortinas d?água subiam e se arremessavam para dentro sobre os passageiros, aterrorizados por tamanha violência. Quando o ?espetáculo? se encaminhava para um desconhecido e tenebroso clímax, um ceguinho que se integrara aos passageiros, acomodou-se em um desvão de escada e tirou da surrada sacola um velho acordeão. E começou a tocar a conhecida valsinha ?está chegando a hora?! E, por incrível que pareça, tudo terminou bem. A irreverência da mocidade ? a grande maioria dos passageiros era de turistas jovens ? entoou a letra da velha musiquinha. Num lapso de tempo muito curto, o barco se transformou numa concha acústica formidável e parece que o rosário de emoções aplacou a fúria das ondas, devolvendo a tranquilidade ao mar de almirante...