Opinião
Quando a viol�ncia � instigada impunemente
Abominável, o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, em São Paulo, devolve à berlinda a eterna questão da irresponsável tese do ?fazer justiça com as próprias mãos?. Com 33 anos e mãe de duas crianças, evangélica, foi trucidada com uma Bíblia nas mãos, no dia 3 de maio, por uma turba ensandecida. O termo ?linchamento?, popularizado nos Estados Unidos, pode remeter ao nome do coronel Charles Lynch, ou ao capitão William Lynch, ambos useiros e vezeiros do método de execução sumária. Os dois tendo atuado nas décadas finais do século 18 e alcançado os primeiros decênios dos anos 1800. Em 1837, ?linchar? já era uma palavra consolidada no sangue de vítimas de julgamentos sumaríssimos. A chamada ?Lei de Lynch? teve, desde o início, suas preferências, sendo os índios os primeiros eleitos para os justiçamentos sumários, mormente cometidos por turbas em êxtase mortal. Depois que os peles-vermelhas escassearam a predileção dos linchadores americanos, voltou-se aos negros. Judeus e asiáticos também foram alvos cobiçados. Dos Estados Unidos, em seu formato ?Velho Oeste?, a denominação varreu o mundo. Mas apenas rebatizou a prática existente em cada lugar, não cabendo aos americanos a pecha de ter ?inventado? esse crime e sim de o ter apelidado. O apedrejamento, citado como pena capital, na Bíblia, é nada mais nada menos que um tipo de linchamento, assassinato cometido, em bloco, por uma súcia qualquer, mas sempre em nome de uma ?causa justa?. A sharia islâmica também reserva versão idêntica, diferençando apenas no nome: lapidação. Pedra sobre pedra, jogadas em furor da turba ?justiceira? é a marca ancestral desse crime, cuja aplicação não dispensa também o uso de paus, sem falar das mãos e dos pés. Ou patas, seria melhor dizer. No caso terrível do assassinato de Fabiane Maria de Jesus, a caterva que a linchou estava influenciada por um site local que divulgara um ?retrato falado? de uma suposta sequestradora de crianças, personagem previamente condenada. Aí está uma fusão perniciosa: mídia irresponsável somada ao instinto criminoso de fazer justiça por conta própria, num casamento criminoso entre atrofias éticas que têm grassado Brasil afora.