Opinião
O ANTES, O AGORA E O DEPOIS
Lembrando Peninha, ?às vezes no silêncio da noite... eu fico sonhando acordado, juntando o antes, o agora e o depois?. O momento político atual leva-nos a essa digressão. Por ser operada por homens, a política tem, naturalmente, suas imperfeições. Em artigo na revista Exame, o prof. João Pereira Coutinho, da Universidade Católica Portuguesa, diz que, se a política fosse uma atividade solitária, como pintar ou escrever um romance, falhar seria instrutivo ou mesmo nobre, mas, falhar, em política, é usar vidas alheias na busca de projetos individuais de poder. Cada dia que passa, menos pessoas comprometidas com o coletivo entram para a política. E, quando os bons chegam, logo se afastam. Nesse caso, encontrei na posse do dr. Marcos Davi no Ihgal dois desses espécimes raros, por coincidência, juntos: Dilton Simões e Péricles Vasconcelos. Dilton, mais conhecido por ter gerido a municipalidade da capital, foi exemplo de retidão também no exercício do mandato legislativo estadual. Peri, viçosense de família tradicional, foi outro a levantar o estandarte da ética na arte de fazer política na Princesa das Matas. Não sobreviveram à avalanche do agora. Quando os cumprimentei, perguntei que ventos os juntou. E, para minha surpresa, outra coincidência: disseram que moravam, no mesmo prédio, em apartamentos vizinhos. Do momento em que um deputado federal, esquecendo que exerce um mandato conferido pelo voto popular, na qualidade de vice-presidente da Câmara, recebe o presidente de outro poder, na casa do povo, fazendo gestos que arremetem à repulsa? Se não bastasse, ficou fazendo gracinhas, tirando fotos do ministro e, comunicando-se pelo celular, dizia estar com vontade de dar uma ?cutuvelada? no presidente do STF. Não demorou muito para aflorarem suas comprometidas entranhas. ?Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito? (Lichtenberg 1742-1799). Resta-nos o depois. Este está sendo pavimentado pelos que fazem o agora. Como o ex-presidente Lula, que, no afã de não perder a capitania e inocentar presidiários, vai a outro país e declara ser o Supremo uma casa onde as condenações jurídicas estão muito aquém das resoluções políticas. Que esperar de gente que, ao mesmo tempo em que procura a verdade sobre a nossa ditadura, esquece dos afagos que fazem a ditadores atuais que continuam prendendo e torturando seus adversários políticos? Ainda do prof. Coutinho: ?Defender ditadores, sejam eles de direita ou de esquerda, não é coisa de gente civilizada?.