Opinião
A indigna��o cidad� e a viol�ncia das turbas
Enquanto nos últimos tempos tem crescido abertamente o entusiasmo de alguns pelo linchamento, igualmente cresce os exemplos de impunidade e a sensação de incapacidade de defesa da sociedade frente à violência e ao crime organizado. Certamente, os dois fatores ascendem juntos, pois a cada frustração diante de uma nova iniciativa violenta levada a êxito, a população tende a reagir na mesma moeda, repetindo a deformação no entendimento da antiquíssima Lei de Talião. Indubitavelmente, uma falsa solução, até porque apenas são réus da Lei de Lynch os eventualmente desprovidos de armamento e/ou condições físicas de autodefesa. Não há notícias de que grupos de pessoas revoltadas tenham tentado linchar algum ?marginal? armado, o que determina limites para essa ?santa indignação? ? o que pode ser uma réstia de bom-senso. Ou de oportunismo. Enquanto isso, provocam a mais genuína repulsa casos como o do frio assassinato da adolescente Dayse Larissa de Sousa Melo, morta aos 14 anos, em Maceió, provavelmente por ?motivos passionais?! Noutro exemplo, deve ser visto como um insulto à inteligência o tratamento tolerante concedido a determinadas ocorrências, como no caso do médico paulista Farah Jorge Farah, réu confesso, processado por ter assassinado e esquartejado sua namorada, Maria do Carmo, de 34 anos, no dia 24 de janeiro de 2003. O caso se arrasta nos tribunais numa lentidão provocante de 11 anos de idas e vindas para se decidir alguma sentença adequada a um indivíduo de formação superior, preparado culturalmente, ?bem de vida? (como se diz no Nordeste), e que não nega ter matado e dividido o corpo de sua companheira, mas que diz, candidamente, não saber ?o que aconteceu? e que por essa atitude ?queria até morrer, talvez ainda queira? ? mas quer mesmo estar livre e solto, para tanto apelando com sucesso para todo o tipo de manobra legal que evite sua condenação definitiva. E vem tendo sucesso há 11 anos! Não há como negar que a impunidade e o sentimento de fazer justiça com as próprias mãos são inseparáveis e se alimentam reciprocamente. Não há como negar que essas duas formas de criminalidade devam ser combatidas simultaneamente. Só se terá sucesso no refreamento dos ímpetos assassinos das multidões se a desenvoltura criminosa, como um todo, for combatida à altura.