Opinião
Quando seca o bom jornalismo
Seria cômico se não fosse trágico, mas o partidarismo da chamada ?grande mídia? brasileira tem dado um verdadeiro show de manipulação. As últimas semanas foram especialmente férteis. Poderosos veículos que ainda incensam o STF por sua postura na Ação Penal 470, condenando e vigiando de perto os principais réus no chamado ?Mensalão do PT?, tornam-se hostis quando outros gestos da Suprema Corte fogem do que os ?donos da verdade? gostariam. Desde as manchetes aos muxoxos de alguns comentaristas, percebe-se a crítica ao que venha a fugir dos scripts dos que se viciaram em manipular a ética. Noutro exemplo eloquente, parece piada o destaque dado, como se fosse algo positivo, à inauguração conduzida pelo governador e candidato a governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do Volume Morto do Sistema Cantareira. Este caso merece algumas linhas a mais por ter sido tratado como uma realização extraordinária. Mergulhemos nos fatos. O chamado Volume Morto é nada mais nada menos que o salva-vidas, uma reserva de emergência que só pode ser usada em crises agudas. Fundamental para São Paulo, o Sistema Cantareira, ao secar, expõe, torna visível, um esqueleto no fundo do que era um lago profundo: os tucanos são mais incompetentes que os petistas nas questões estratégicas, tanto que ? apesar de toda a ?grande mídia? forçar o foco nos níveis baixos dos reservatórios sob a responsabilidade do governo federal ? quem pediu água antes da hora foi o maior complexo hídrico sob a (ressequida) gestão tucana. Invertendo os fatos, os imprensadores colocaram o governador paulista surfando no seco e converteram um dramático apelo à última reserva d?água na Grande São Paulo numa ?inauguração? com direito a entusiasmante cobertura midiática. O principal reservatório sob as asas tucanas suga o volume morto para não morrer de sede. E faz promessa para todos os santos e todos os orixás para que chova, chuva farta, nos próximos seis meses nas cabeceiras do Sistema Cantareira. Caso contrário, São Paulo poderá sentir na pele o traduzido em obras imortais como o romance Vidas Secas ou composições como Asa Branca. Oxalá isto não seja necessário, pois o povo paulista não merece. Nenhum povo merece.