Opinião
Transi��es
EDUARDO BOMFIM * O Brasil vive atualmente um período especial. Outros países, emergentes ou não, gostariam de se encontrar em idêntica situação. Não por acaso, andam pelo mundo, depositando tantas esperanças em nosso futuro. Esta viragem sobre as nossas possibilidades, ultrapassa aquilo que diziam sobre nós: a ?nação de imensas potencialidades?, para um futuro imprevisto. É claro que o novo nesta história toda reside na derrota do projeto neoliberal e a vitória esmagadora, nas eleições presidenciais, de um candidato representativo das forças de esquerda e centro-esquerda. Em uma nação de dimensões continentais, com uma grande população e um parque industrial complexo, configurando-se como a décima segunda economia mundial. Ressurgimos mais uma vez no cenário internacional com enorme expectativa para muitos e preocupações para alguns. O problema que se coloca diz respeito ao itinerário que seguiremos. E a nossa trajetória tem sido a da busca de uma transição sobre duas questões básicas: como alcançarmos a soberania econômica e política. Como promover o crescimento e sermos ao mesmo tempo senhores do nosso próprio nariz no contexto geopolítico mundial? São duas interrogações substanciais porque implica em definir o modelo de uma economia sustentada, do nosso porte e simultaneamente, saber navegar com autonomia em águas internacionais bravias. Necessário se faz muita ousadia e prudência. Se olharmos, por exemplo, o curto período histórico que se inicia em 1930 aos dias atuais, percebemos que em determinados instantes avançamos, e em outros retroagimos, forçados por adversários externos e internos. A luta teórica constitui-se em elemento de primeira ordem em todo este processo. Até mesmo, já predominou como hegemônica, em tempos mais antigos, a proposição de que por motivos raciais e climáticos, estávamos fadados a sermos um país eminentemente agrícola. As políticas de endividamento sistemático, através dos empréstimos via fluxos de capitais externos, formaram outro dique às nossas pretensões emancipacionistas. Em outros momentos, elas foram impedidas na marra, como 1964, para não citarmos o sacrifício supremo de Getúlio em 1954, com seu suicídio. Para a esquerda em geral, além dos dois primeiros elementos essenciais, crescimento e soberania nacional, introduz-se como fundamental a distribuição da riqueza, em relação à qual somos campeões em concentração e exclusão social. Seja lá qual for a matiz teórica sobre a ruptura sistêmica, ou como superarmos o perverso capitalismo e alcançarmos o socialismo, não há como ignorar as três questões suscitadas aqui. O certo mesmo é que não há respostas fora do curso da vida política real. Ou então, ficamos nas discussões etéreas, celestiais. A fuga da realidade concreta, o que dá no mesmo. Acredito mesmo que nunca existiu algum processo revolucionário, de libertação social, sem transição. Cada uma correspondente à realidade do país e do contexto histórico de sua época. A russa teve não uma, mas várias transições, inclusive durante o período revolucionário. A chinesa iniciou pelas liberdades democráticas, passou pela libertação nacional e dizem eles que se encontram em estágio primário do socialismo. O mesmo pode-se afirmar das incompletas lutas contra o colonialismo e neocolonialismo. Pode-se argüir, existe o perigo de uma capitulação ou cooptação? Evidente. Mas e daí? Ou bem vamos impulsionar o governo Lula para as posições mais conseqüentes e compromissos assumidos ou se marca posição visando capitalizar insatisfações bastante prováveis. Neste último caso temos na parada candidatos mais fortes, os derrotados na última eleição. Assim, voltamos à velha questão da transição. Um desafio enorme, espinhoso, adversários poderosos, mídia forte, o imperialismo à espreita, movimentos diversionistas, fraquezas humanas, o preço de cada um. E por aí vai. Parodiando Ortega y Gasset, o Brasil é o Brasil e suas circunstâncias. (*) É ADVOGADO