Opinião
SER PROFESSOR OU FUGIR PARA AS MONTANHAS?
Em conversa com amigos, um deles fez uma relação do caráter do povo brasileiro, após eu dizer que éramos um povo sofrido: O povo sofrido que você fala, povo que fazemos parte; eu, você, e todo o restante da população, é o mesmo que elege os representantes bandidos que estão aí. É o mesmo que reclama da corrupção, mas que paga propina pra guarda de trânsito. É o mesmo que procura um conhecido em um órgão público para facilitar o seu acesso, para dar andamento a seu processo ou para obter alguma vantagem em detrimento dos outros. É o mesmo que joga a garrafa de água mineral vazia pelo vidro do carro. É o mesmo que obstrui o cruzamento, mesmo sabendo que o semáforo vai fechar para ele e que vai impedir a passagem de quem vem na transversal com o sinal aberto. É o mesmo que aceita um cargo comissionado sabendo que vai receber 50% do salário e os outros 50% vão para quem o indicou, mas que não vai precisar dar expediente. É o mesmo que trabalha numa campanha eleitoral para conseguir um cargo numa futura gestão de seu candidato, sem fazer nem ideia do plano de governo dele, do seu caráter, ou pior, não se importa; só quer que ele ganhe para poder ter um cargo com um bom salário. É o mesmo que acha normal uma viatura da polícia solicitar ?hot dog? para cada componente da guarnição, sem nada pagar, a um pobre vendedor, com o argumento de que faz a segurança do pequeno comércio, como se trabalhassem sem salário. É o mesmo que estaciona seu carro na vaga reservada para deficiente, sem ter qualquer deficiência, a não ser de caráter. É o mesmo que, ao sair de um estacionamento, bate levemente, ou arranha um carro de alguém, mas como ninguém viu, vai embora, ?espertamente?. É o mesmo que encontra um aparelho celular esquecido em algum lugar e diz ?achado não é roubado? (fico imaginando se isso vale para um carro estacionado, sem o dono dentro, afinal o carro foi achado, então pode-se levá-lo, já que não é roubado). É o mesmo que, quando chega o ônibus, empurra quem estiver pela frente para conseguir entrar. É o mesmo que, se tiver chance, e ninguém o vir, fura a fila. A responsabilidade de ser professor me faz tentar mudar tudo isso através de uma arma letal: a educação. Para fazer este lugar que chamamos de Brasil um lugar melhor. Não posso fugir para as montanhas na busca de autopreservação deixando para trás aqueles a quem devemos nosso futuro... As crianças.