Opinião
Mistureba
As esperanças de mudança começam a ser arranhadas pela explícita misturada entre o que se sabe velho e o que se anuncia como novo. O PT e o PSDB estão juntos na formação do governo que tomará posse em primeiro de janeiro e a intimidade é tal que chega a surpreender os mais calejados nas idas e vindas dos bastidores da política. A sintonia entre a estrela e o tucano está sendo bem maior que as afinidades entre o PT e os demais partidos aliados (no primeiro e no segundo turno das eleições presidenciais 2002). Enquanto esses partidos aliados e segmentos do próprio PT são empurrados com a barriga para opções ? nem sempre confirmadas ? do segundo escalão, postos essenciais são preenchidos por tucanos estelares e até por funcionários ligados a ministros em fim de gestão. Duas indicações reforçam esse quadro onde cresce a penugem tucana nos raios da estrela. O banqueiro Henrique Meirelles é identificado com a orientação imposta por FHC em seus oito anos. Fiel a seu ideário, o ex-presidente do Banco de Boston filiou-se ao PSDB quando decidiu se lançar na carreira política. Eleito como o deputado tucano mais votado no Estado de Goiás, pousou num dos postos mais disputados e polêmicos, a presidência do Banco Central. Chamou a atenção, igualmente, a eleição para a presidência do Sebrae, onde o PSDB operou uma mudança de nomes entre seus próprios quadros. Não chegou a acontecer disputa pela composição nacional do Sebrae, outro posto cobiçado. Uma eleição unânime coroou a escolha feita por FHC e expressa pelo ministro Pedro Parente, que assumiu a indicação de um funcionário de sua confiança para a direção executiva daquele órgão. Os comentários davam conta de uma composição com o PT, que teria vetado a reeleição de Sérgio Moreira, mas, ao invés de propor o seu sucessor, teria se contentado com postos executivos em níveis inferiores. Boatos existem, mas o fato é que o velho governo de FHC lança suas raízes no terreno que se anunciava como área nova. Que frutos advirão desse intercurso? Certamente, o povo ainda aposta na esperança, mas...