Opinião
Juan Carlos, o rei da redemocratiza��o
Renunciou ontem à coroa um dos poucos monarcas reconhecidos como tal no mundo contemporâneo. O rei da Espanha, Juan Carlos, ao anunciar sua descida definitiva do trono, aos 76 anos, consolida uma biografia expressiva e apimentada com capítulos polêmicos. Juan Carlos é italiano. Ao nascer, em Roma, no dia 5 de janeiro de 1938, era um príncipe sem trono no horizonte por dois motivos básicos: a monarquia espanhola havia sido derrubada em 1931. Apesar dos Republicanos terem perdido a Guerra Civil, o fascista generalíssimo Franco, líder inconteste dos Nacionalistas e vitorioso no conflito que ensanguentou a Espanha entre 1936 e 1939, jamais pensou em dividir um grão de paella sequer com a monarquia deposta pelos que ele derrotara. Franco não quis conversa com o derrubado Afonso 13 nem com sua prole. Foi preciso muita súplica e bajulação para que o generalíssimo aceitasse um neto do monarca, o garoto Juan Carlos, com 10 anos, como estudante em terras espanholas. E o ditador, depois de muitos anos, decidiu que aquele Juan Carlos seria o herdeiro da coroa espanhola, nomeou-o rei em 1969, mas determinou que o herdeiro só reinaria depois de sua morte. E assim foi. Péssimo morredor, Francisco Franco só bateria as botas em 1975. Aí Juan virou rei. E, justiça lhe seja feita, jogou um papel muito positivo na redemocratização espanhola, aplicando uma rasteira daquelas na escória direitista herdeira do fascismo de Franco. Em função desse protagonismo, durante um longo momento decisivo no qual foram costuradas alianças complexas e delicadas, Juan Carlos foi bem além da postura de um monarca decorativo, típico das democracias constitucionais. Sua liderança foi especialmente realçada quando se negou a apoiar uma tresloucada tentativa de golpe de Estado perpetrado por militares franquistas. Enfim, de 1975 até ontem, o rei da Espanha, Juan Carlos, impôs seu reconhecimento ao mundo. Mas nos últimos tempos, tropeçou feio, claudicando seja numa lamentável matança de elefantes na África seja pelas peraltices da filha mais nova e seu consorte, principesco casal flagrado num grande escândalo de corrupção à espanhola. Comprovando sua sapiência, pediu o boné e deixou a arena antes que o touro da indignação pública o espetasse.