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AS V�SCERAS EXPOSTAS DO GIGANTE

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O melhor nome do pensamente esquerdista nacional é o filósofo Wladimir Safatle. Colocando o dedo em pequenas feridas selecionadas, o professor da USP vem chamando a atenção para algumas injustiças brasileiras. Seus dois últimos questionamentos foram sobre a não taxação de bens móveis de luxo (jatinhos, helicópteros, iates) e o diminuto imposto sobre herança que praticamos no País. Rapidamente, liberais apareceram para demonstrar que isso não resolveria os problemas dos pobres, que provocaria fuga de capitais, que o livre mercado foi o sistema que mais diminuiu a pobreza no mundo ao longo dos tempos etc., etc., e etc. Tudo bem, correto, correto e correto, mas também não é bem assim. Se os bilhões a mais recolhidos com uma eventual justa cobrança de IPVA para barcos e aeronaves não vai resolver tudo, atrapalhar também não vai. Quanto a aumentar a alíquota sobre as heranças, desestimulando o rentismo eterno hereditário, pode ser, sim, um problema. Essa coisa de fuga de capitais pode parecer chatice de neoliberal, mas é a dura realidade da globalização. Se for feita atribuladamente como se tentou na França recentemente, o dinheiro desaparece mesmo. Mas se for feita paulatinamente, ninguém vai mudar para Miami por causa disso. Os que podiam, já foram. Safatle eventualmente escreve coisas como ?A jornada de trabalho de 44 horas é medieval?. Se não existem muitos profissionais liberais comunistas, talvez seja porque é intragável para quem enfrenta jornadas de até 80 horas semanais, como os médicos, ouvir asneiras como essas. Apesar disso, sua teoria sobre o futuro de nossa democracia merece ser discutida. Seu argumento principal é que conseguimos recentemente transformar uma horda de miseráveis em consumidores de classe média, com acesso a bens de consumo. No entanto, se essas pessoas tentassem pagar escola particular e plano de saúde (decente) para a família, seu poder de compra voltaria a ser o de 30 anos atrás. Só teríamos, então, dois caminhos para evoluir como sociedade, com educação gratuita de qualidade e melhorando o SUS, caminho defendido por Safatle, ou esperando a classe média enriquecer até que possa pagar planos de saúde privados e escola particular. O problema dessa segunda via é que, mesmo que dê tudo certo, demoraria 200 anos para vencermos por esse caminho.

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