Opinião
PATR�CIA GALV�O: FEMININA E VANGUARDISTA
A pequena cidade paulista de São João da Boa Vista viu nascer em 9 de junho de 1910, ?um anjo anárquico que veio ao mundo para nos inquietar?. Estas palavras do dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) se referem a Patrícia Rehder Galvão, ou, simplesmente, Pagu. Sua vida foi bastante agitada. Concluiu o curso escolar normal em 1928, mesmo ano em que ingressou no célebre movimento antropofágico. Aqui, conheceu o notório casal modernista Oswald de Andrade (1890-1954) e Tarsila do Amaral (1886-1973). Aproximou-se de ambos e acabou se envolvendo com Oswald, que, por sua vez, rompeu com Tarsila. Em 1930, Oswald e Pagu se casaram. Tiveram, inclusive, um filho ? Rudá de Andrade (1930-2009). Tal episódio revela quão ousada era Patrícia Galvão. O hábil escritor de Memórias Sentimentais de João Miramar, não foi o único a ter a atenção ?fisgada? pela jovem. Pagu atraía olhares por sua beleza e pelos atos ?avançados? que protagonizava, chocando a conservadora sociedade de então. São dessa época os versos de Oswald, ?Se o lar de Tarsila/ Vacila/ é por causa/ do angu/ de Pagu?. Em 1933, publica o romance Parque Industrial, quiçá sua obra mais famosa. Embora marcado por um tom panfletário, segundo afirmam alguns críticos, o livro sobreviveu ao tempo e é mencionado até hoje em estudos estrangeiros sobre literatura latino-americana. Segundo Tereza Freire, em seu Dos escombros de Pagu: um recorte biográfico de Patrícia Galvão, ?A publicação quase clandestina de Parque industrial pode ter feito um grande bem a Pagu. Tivesse sido mais divulgado, talvez ela fosse linchada pelas mulheres da alta sociedade paulistana?. Pagu também enveredou pela política. Ingressou no Partido Comunista, em 1931, chegando a ser presa mais de uma vez por sua militância. Foi, até mesmo, torturada. Em 1932, trabalhou como lanterninha de cinema, seguindo a orientação de seu partido. A ideia era adquirir experiência com um trabalho proletariado. Em 1940, ano de seu rompimento com o PC, após decepcionar-se com a distorção ideológica da União Soviética, casou-se novamente, desta feita com o jornalista Geraldo Ferraz (1905-1979), com quem teve o seu segundo filho ? Geraldo Galvão Ferraz (1941-2013). Também dissertou expressivamente na imprensa. Um câncer arrebatou a magnífica vanguardista. Patrícia Galvão faleceu em 12 de dezembro de 1962, mas não sem antes deixar o seu extenso exemplo anticonservador para mulheres e homens brasileiros.