Opinião
Salve o direito brasileiro de torcer
Cada povo tem um conjunto de valores, crenças e costumes que o identifica externamente e agrega seus integrantes em torno de um sentimento de pertença comum. É o sentimento identitário, que se fragiliza, por exemplo,em momentos dolorosos de exílio. Recentemente, o cineasta libanês Mounir Maasri produziu, no Brasil, o belíssimo filme ?A última estação? (atenção, cinéfilos, vejam-no no canal Brasil), que representava poeticamente o exílio do povo libanês e a generosa aceitação dessa comunidade em nosso País. Assim, desde os gregos na Antiguidade, que consideravam apenas os nascidos na Grécia verdadeiros cidadãos,os grupos identitários se reúnem e veem o estrangeiro como uma ameaça. Obviamente, a noção de nacionalismo, vista radicalmente,pode conduzir a perigosas ideologias e manifestações xenófobas e autoritárias, como o nazismo, ou o fundamentalismo islâmico. A globalização quebrou parcialmente a legitimidade de um olhar muito endógeno, mas não eliminou (graças a Deus ou aos deuses)o sentimento identitário de pertença). Amamos o que nos identifica, reconhecemo-nos quando nosso hino toca, ou quando a bandeira tremula em espaços abertos. Cafona? Até pode ser, mas não somos também kitsh? Sei que os políticos, ou governantes, podem cooptar esse sentimento de pertença,em favor de uma posição política ou outra. Fiz esse preâmbulo para entender a atitude de algumas pessoas queridas e inteligentes que resolveram apostar na derrota do Brasil na Copa de 2014. Gosto de futebol; brigo com a TV, quando um jogador de nosso lado dá um mau passe, retardando perigosamente nosso avanço em direção às hostes inimigas, assisto a entrevistas de madrugada (há um programa do antigo craque Falcão, muito bom, fazendo um giro pela crítica especializada no mundo). Detesto quando o meio de campo está lento, e lembro sorrindo quando gritávamos pelo Kaká, bonito, e escolhido gaiatamente pelas mulheres o melhor jogador em campo, mesmo estando... na reserva. Jogo é brincadeira, é ludismo e, como a arte, milenar. Bem, amigos, segue meu palpite para esta terça: Brasil 2 X México 1. Li todos os prognósticos ruins, mas... que fazer? Sou assim mesmo, arranhada mas esperançosa. E viva a seleção, o Brasil e todos nós, metidos alguns até a cronistas esportivos, quando são mortais cronistas, apenas.