Opinião
Entre dribles e mordidas
Os primeiros cronistas no Novo Mundo relatam as habilidades dos índios no norte do Brasil e na América Central com quicantes bolas de borracha:segundo o capitão Gonzalo Oviedo,eram dez ou mais jogadores de cada lado,era o século XVII e ele admirou-se da elasticidade da bola indígena, muito mais viva que a cristã,feita com bexiga inflada.O gol era um anel de pedra entalhada e descreveu ?os índios não jogam a bola com a mão ou com o punho;recebem a bola no ombro, cotovelo,pé, cabeça e muita vez nos quadris e a devolvem com muita graça e agilidade?. No México pré-colombiano, na abertura dos jogos,os sacerdotes carregavam a imagem do deus da bola de borracha, convictos de que ganhar ou perder o jogo era a felicidade ou a desgraça.O jogo da bola possuía significação cósmica:o campo significava o céu noturno,a partida representava o antagonismo entre a luz e a treva, a vitória e a derrota do sol. A pioneira bola trazida por Charles Miller da Inglaterra, celebrada introdução do futebol no Brasil teria sido precedida por séculos de dribles e chutes. Mas provavelmente, a antiguíssima paixão global pela bola, deslumbre daqueles primeiros cronistas europeus na América, os tenha impedido de ver a outra face dos indígenas, como descrita por colegas menos deslumbrados; caetés e potiguares, vorazes canibais, que consideravam ser o estomago a sepultura ideal para o inimigo: a pele do crânio para os guerreiros, a língua e os miolos eram dados para as crianças, o sangue quente da vítima era embebido nos seios das mães para amamentar os bebês. Essa espetacular Copa está rumando para ser ganha pela América,nossas seleções vem devorado um a um seus adversários europeus, mas paralelamente, o jogo político por aqui está cada vez mais selvagem e canibalesco, a oceanos de distância das civilizadas democracias européias, com as exceções de sempre,como a beligerante Rússia. A dentada de Suarez no Chiellini, que o afastou da Copa, foi motivo de várias interpretações : uma infância difícil, uma pulsão freudiana que teria a ver com sexo reprimido.Suarez não seria a representação viva de uma metáfora da nossa trágica América Latina?Talento bruto,habilidade natural,vigor, mas concomitantemente,instabilidade, insensatez e selvageria na luta pelo poder?