Opinião
Arranjos indesejados e mordidas no ombro
Sequenciando o tema ?convenções 2014? tem chamado a atenção, especialmente no patamar da disputa presidencial, os desencontros entre titulares e vices, com os ungidos se esforçando para a disseminação do clima de amor, paz e fraternidade entre nomes que não eram os preferidos uns dos outros. No caso da candidatura Dilma Rousseff e Michel Temer, os problemas foram minimizados desde há quatro anos, quando da formação da chapa encarregada da substituição da dupla Lula & Alencar no Planalto Central. A repetição da fórmula costurada em 2010 não se deu sem sobressaltos, como pode ser atestado na rebeldia de parte da base aliada. Mas, sem dúvida, as dissenções entre a presidenta e seu vice são bem menores que as distâncias entre seus congêneres nas duas chapas mais badaladas. No PSDB, Aloysio Nunes Ferreira não era o vice dos desejos de Aécio Neves, que sonhava com o prestígio jurídico da ministra aposentada Ellen Gracie (ex-STF) ou com a chance de chegar mais junto do Nordeste com Agripino, mas teve de engolir um bicão aliado de seu eterno desafeto José Serra. Paciência. Na composição Eduardo Campos & Marina Silva, porém, é que a emenda parece pior que o soneto, apesar das recíprocas e replicantes declarações de unidade eterna entre os dois próceres. O fato inegável é que pouco, ou nada além do objetivo circunstancial de apear Dilma Rousseff, une a dupla. As divergências ficaram explícitas e públicas em relação à postura do PSB frente à sucessão estadual paulista, quando Marina estrilou em alto e bom tom contra a composição dos socialistas com os tucanos. O desencontro mais importante, porém, é outro e diz respeito às concepções sobre para onde e por onde o Brasil precisa avançar. Nesse aspecto estratégico, nenhuma coligação faz coabitar candidatos com posições tão contraditórias numa mesma chapa. Eduardo Campos é um desenvolvimentista, do tipo que não se apiedou de vastos territórios e os desflorestou de verdejantes manguezais, em Pernambuco, para que nessas áreas fossem instaladas portentosas indústrias. Marina Silva, a verde, enrubesce frente tudo isso, radicalmente aferrada a suas crenças tribais. Como essa dupla, dinâmica e antagônica, conduziria um governo, na hipótese de ser eleita?