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Opinião

DO PARA�SO AO INFERNO

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Década de 70. Apesar de toda repressão da ditadura militar, paradoxalmente, podia dizer que em certos aspectos vivíamos em um mundo mais próximo de um paraíso. A educação moral e cívica nos permitia acreditar que a hombridade se refletia nos cabelos grisalhos de um homem bem como no bigode que honrava veementemente. Lembro-me da infância feliz na pequena chácara dos meus avós maternos. Época em que a ausência de câmaras, cercas elétricas, alarmes não influenciavam negativamente a sensação de segurança. Ali, pude sentir a liberdade proporcionada pela natureza. Subia, descia e caía das várias árvores frutíferas. Me deliciava com a comida feita no fogão a lenha e com a água retirada do poço. Apreciava a harmônica convivência dos animais e a sinfonia dos cantos dos pássaros que só findava ao crepúsculo e com o acender do candieiro. Quando na cidade, na residência dos meus avós paternos, ia com frequência brincar com o filho da secretária de minha avó em sua casa, no Vale do Reginaldo. Maria, uma amável preta velha, era considerada parte da família, devido a sua devoção por décadas, bem como o carinho e o cuidado atribuídos ao seu forte instinto materno. Podíamos ir para cima e para baixo no morro brincando com os outros meninos. E era possível até pegar pequenos peixes ornamentais no riacho. O ensino público de boa qualidade voltado a todas as classes sociais garantia a formação de cidadãos assim como as boas amizades preservadas até os dias atuais. Passou-se o tempo. Início de 80. Mudou-se o regime político e veio com ele uma forte corrente libertária. Surgiu então uma crescente adesão ao surfe. Influenciados pela filosofia de ?paz e amor? do movimento hippie e pela liberdade de expressão, muitos jovens se identificaram com o esporte. A beleza paradisíaca e as ondas perfeitas tornaram a Praia do Francês o cenário perfeito para a prática. O voo nas ondas das asas do coração e a atmosfera mágica do lugar fizeram a rapaziada delirar e se largar a qualquer custo em barracas de camping postas à sombra dos coqueirais. Muitos se desvirtuaram do verdadeiro sentido do esporte e se perderam em sua própria existência. Outros aprenderam a ter calma, persistência, coragem e sabedoria nos ensinamentos das arrebentações e transcenderam tal aprendizado para outras esferas de suas vidas. No templo sagrado do mar, tenho o privilégio de comungar o surfe há quase três décadas com bons amigos. Infelizmente, não vamos ter mais a presença física do nosso irmão de água salgada Marcos André (Marquinhos), que, por causa da língua negra de sangue que emana do inferno na terra em direção ao mar, deixou de nos alegrar com o seu sorriso contagiante.

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