Opinião
A FEIRA SERTANEJA
Qual a marca da nordestinidade? A tradição; a tradição dos costumes, da linguagem e dos sentidos. E que se ressalte: dos sentidos! E sem a clara percepção de como estes, os sentidos, a partir e através da tradição, se apresentam ao movimento da vida, o nordestino se perde num mar efervescente de negação da história. Sem o indicativo dos acertos e erros do passado, imperar-se-ão os últimos, os erros, ante a infeliz perda da experiência acumulada. Da experiência, o legado; então os sentidos. E os muitos sabores da tradição nordestina se encontram nas feiras sertanejas. Todas elas nascem numa manhã tímida, num silêncio que aos poucos passa a ser torturado pelo primeiro passar de gente, de sono abandonado aos gritos de venda, de produtos e de movimentos. Parece que a chegada da manhã obriga o nascimento da festa barulhenta do novo dia, em qualquer cidade sertaneja. Ó, o grito lá longe junto a um punhado de gente interessada. Um canto muitíssimo ibérico, abrasileirado, um chamado à aventura de sempre. De troca em troca, mais algumas somas de gritos. De grão em grão, a fruta e a verdura. De interesses e olhares, a carne pendurada e o vidro de remédio pra inchaço. Chega o saco de farinha, o caminhão de melancia, a cantoria e o queijo coalho. Nesse pequeno mundo, compreende-se um e o mundo, com sotaques e afins. A feira, um grande encontro de personagens e de histórias e, até mesmo, de identidades, de amizades e de apelidos. Onde não se tem nome, vira filho de seu alguém. Porém, onde a cidade se faz cidade, sendo feira, às vezes se esquece de ser cidade. Num tempo onde o essencial é absorvido pela luxúria do efêmero e do importado, os demônios da pós-modernidade imperam como a adoração veemente do absurdo e do desenraizado. No final, todos vão embora, entristecidos com a desesperança, findada a poesia da sobrevivência que o contato com o outro lhes permite na feira construir. Pronta a deixar de ser nordestina e brasileira, a feira sertaneja pede socorro, como um cão magrelo encostado na esquina do mercado de carnes. Outros modos de ser e de comercializar, importados, machucam o solo das identidades e das tradições. Para quem ainda acorda na mesma manhã tímida de sempre e faz questão de sentir o passado como presente ou a tradição como sentido, a oportunidade de amaciar o futuro agora se perde diante da inexperiência em relação ao que é cultural e essencialmente nosso. Urge a percepção clara da feira sertaneja como elevado grau de cultura e de nossa identidade em relação ao mundo.