Opinião
EM CAMPO, NIETZSCHE E MAQUIAVEL
Nietzsche escreveu ?a vida precisa de ilusões, isto é, de não verdades consideradas verdades?. Hoje, entram em campo o Brasil e a Holanda para um jogo que não tem nenhuma razão para existir, alguns dias antes esses times esperavam ser campeões mundiais e o clima para essa disputa pelo terceiro lugar é de velório. Mas a Fifa quer faturar. A ilusão pode ser um coisa saudável em muitas ocasiões, como no carnaval e no cinema, quando consciente e deliberadamente, escapamos da dureza da realidade por alguns momentos,com tempo previsto para começar e terminar esse devaneio. Não foi o caso da seleção brasileira, cuja comissão técnica, por mais pífia que fosse a performance do time, alardeou,sempre arrogantemente, que o time seria indubitavelmente campeão, e a ilusão foi acalentada. ?São tão simples os homens e obedecem tanto às necessidades presentes, que quem engana sempre encontrará alguém que se deixe enganar?, escreveu Maquiavel. Daí, do fomento da ilusão à propagação da enganação, é só uma questão de (falta) princípios. A divergência e a crítica criteriosas poderiam alertar e evitar o desastre. Mas aqueles poucos que ousavam divergir saudavelmente dos gastos excessivos da Copa, ou criticar equilibradamente o desequilibrado time nacional, precisavam ser excomungados: detratados como antipatriotas, arrastados, inclementemente, ao ?Brasil, ame-o ou deixe-o? da época da ditadura. Eis a censura prévia reinstalada. O ufanismo patrioteiro, bancado inconsequentemente, principalmente pela mídia campeã de audiência nacional, levou ao maior vexame de nossos cem anos de futebol. A histórica humilhação dos 7x1, que poderia, não fosse a piedade dos caridosos alemães, ser muito maior, levou às lagrimas, inclementemente por todo o País, um universo de crianças inocentes, cujos pais deveriam estar mais atentos ao que hoje ocorre no País. No futebol e na política, ambos, padrão Felipão. Mas, o clima de velório do sábado, certamente será de festa no domingo: a presidenta da República poderá, gloriosamente, como é tradição, apesar do favoritismo alemão, entregar a taça a Lionel Messi, e los hermanos argentinos terão todas as razões para comemorar a Copa das Copas, e, ainda melhor, livres dos custos da festa.