Opinião
Mudan�as sentidas e perman�ncias sofridas
Se a presidente da Argentina não tivesse desistido de assistir à final da Copa do Mundo, a galeria de honra do Maracanã exibiria, neste domingo, perfiladamente, três mulheres poderosas, chefes de Estado e líderes políticas de raro destaque mundial ? Angela Merkel, Cristina Kirchner e Dilma Rousseff. Cada uma com seu estilo, cada qual com sua ideologia, mas formando um trio capaz de expressar a mudança conquistada pelas mulheres, enquanto gênero ocupante do poder, no mundo. As três, cada uma a seu modo, são crias dos tempos da guerra fria. As três com raízes, mais ou menos firmadas, no terreno avermelhado. Merkel, embora nascida (em 1954) no lado ?Ocidental? da Alemanha dividida, cresceu no setor ?Oriental?, tendo estudado e participado da política sob a inspiração soviética. Embora não tenha sido militante comunista, foi ativista do movimento socialista JLA, tendo cursado as disciplinas típicas do marxismo-leninismo. Sua carreira política decolou, porém, depois da reunificação alemã, quando passou a brilhar como modelo capitalista-liberal. Cristina Kirchner (nascida em 1953), foi uma das opositoras sobreviventes da violenta ditadura militar em seu país, juntamente com seu marido, Nestor Kirchner. O casal de advogados defendeu e escondeu perseguidos políticos e mantiveram viva a tradição argentina de parceria e fruição do poder real entre marido e mulher. Dilma Rousseff (nascida em 1947) tem o currículo mais à esquerda das três, tendo sido presa política e militado em grupos radicais de oposição ao regime militar brasileiro. Ascendeu pelas estruturas da gestão pública e ganhou a primeira eleição que disputou na vida (para presidente da República) e espera repetir a dose ? como as duas outras já o fizeram. Um mundo mudado, sem dúvida. Embora existam dúvidas se as mudanças foram tão para melhor assim, não resta dúvidas que ? pela ótica do gênero ? está registrado um avanço indiscutível. Não mudou, porém, a escrita do Brasil perder a Copa em casa. Como há 64 anos, a taça será erguida por visitantes. Entre 1950 e 2014 foram inscritas cinco estrelas na camiseta brasileira, mas continua faltando aquela conquistada em casa. Neste domingo, ou Angela ou Cristina sorrirá seu maior sorriso, enquanto Dilma entregará o troféu para a Alemanha ou para a Argentina.