Opinião
B�SSOLAS DESLIGADAS
Como a lei proíbe aumentos salariais no período eleitoral, seremos poupados de novas greves por alguns meses, mas não podemos esquecê-las, pois se não cobrarmos a discussão desse assunto agora, na campanha, nada será feito depois e, em pouco tempo, elas voltarão a paralisar o País. A história enumera diversos momentos onde o ser humano conseguiu ter compaixão até mesmo com seu pior inimigo. Já no Brasil, a identificação com o sofrimento do outro foi esquecida de vez. As greves dos serviços essenciais tornaram-se inaceitavelmente frequentes. Existem 3 caminhos para tentar findar com essas calamidades, mas todos dependem da boa vontade dos entes públicos, o que nos reserva parcas esperanças. A forma primeira e desejável de pôr fim aos movimentos abusivos é a votação de uma lei de greve, que determine quais são os serviços essenciais, quais as regras para as paralisações e, principalmente, quais as sanções e como serão aplicadas na prática, de forma a evitar a perpetuação da chantagem das minorias sobre as maiorias. O problema é que essa solução teria de vir do Congresso, órgão que, em nosso país, parece funcionar permanente em estado de greve. Outra solução seria através da Justiça, que com as leis atuais, dizem, já tem, sim, substrato para fazer acontecer. Apesar disso, os sindicatos hoje zombam das decisões judiciais, que, no final, nunca são efetivamente pagas. Falta o entendimento por parte dos magistrados de que são, eles mesmos, um serviço essencial. Os ônibus devem circular com 70% do efetivo e 100% nos horários de pico, quando em greve, mas os tribunais podem ter férias dobradas, recessos e folgas mil. E fica a dúvida, pode a Justiça fazer greve? Ou apenas com esquema 70%/100%? Quem julga se a greve da Justiça é legal? Por fim, existe um último ator que poderia, se não evitar, amenizar o sofrimento causado à população por essas paralisações. Esse alguém somos todos nós. Cada um, como gente dita descente e fraterna, não pode se permitir o desligamento da bússola moral quando deslumbrado por um possível aumento salarial. Sinal patognomônico dessa nossa doença social é a morte de um cidadão, por infarto, em frente ao Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio. O instituto estava em greve e os médicos que lá trabalhavam, que alegam não terem sido avisados, se o foram, deixaram que questões trabalhistas lhe furtassem a mais básica humanidade.