Opinião
Ontem e hoje: a paz massacrada
Ontem, se vivo fosse, Nelson Mandela completaria 96 anos. Morto em 2013, a data não passou em branco e várias iniciativas ? espalhadas pelo mundo ? lembraram a sua marcante figura. Ontem, dia de festa e saudade por um líder que soube ser guerreiro e pacifista ao mesmo tempo, foi marcado pela brutal certeza de que estão muito vivos e atuantes os defensores da morte, da guerra desabrida e da violência irracional. No mesmo momento no qual pessoas, no mundo todo, procuravam preservar o legado de Nelson Mandela, em pelo menos dois lugares do globo o terror puro e simples se agigantava mais e novamente. Na Faixa de Gaza, tanques e armamentos letais dos mais modernos eram usados impiedosamente contra uma sociedade espremida entre seus adversários externos e os insensatos internos. No céu da Ucrânia, era abatido (segundo as evidências) um avião de passageiros com 298 pessoas a bordo. Duas notícias tenebrosas, desumanas. Por incrível que possa parecer aos menos avisados, são ainda mais desumanas e tenebrosas as reações das principais autoridades envolvidas nos dois episódios terríveis. Líderes palestinos repetem que não vão recuar no combate ao gigante israelita e os líderes de Israel reafirmam que avançarão no ataque ?pelo tempo que for necessário?. Ucranianos, russos, pró-americanos e pró-russos disparam acusações uns contra os outros, cada qual responsabilizando o lado contrário pelo covarde assassinato em massa das 298 pessoas que, em paz, cruzavam o céu acima daquela região conflagrada. Todos prometem mais violência, arguem vinganças e prometem retaliar seus acusadores. Ninguém que seja protagonista naqueles cenários fala em paz. Ninguém (com algum poder real) ousa dizer que tais estupidezes, partam de quem partir, têm de acabar. Todas as falas são odes ao direito de vindita. Hoje, é de ontem o exemplo de Mandela, o defensor da luta armada que construiu a paz num dos países mais explosivos do mundo. Parece ser um exemplo de outro planeta, um personagem de ficção, uma biografia sem reflexo no mundo verdadeiro. Mais que nunca, a lição de Nelson Mandela comprova, para quem ouse ter boa vontade, sua vitalidade e mensagem de esperança.