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Opinião

UM INEXPLIC�VEL PODER DE CURA

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Nos anos 30, não havia televisão, aviões a jato, viagens à lua. Para os mais novos, custa imaginar uma época sem aparelhos de ar-condicionado, CDs e Internet. Acostumados ao progresso da medicina, o que pensar de um tempo em que não haviam sido descobertos antibióticos, vacinas e soros? Há 75 anos, a vida era outra. Nas pequenas cidades, não havia assistência médica. Volto a esse passado para situar a história que vou contar. O velho Quincas (ou o tio Quincas, como todos o chamavam) era um homem forte, de boa aparência, cabelos longos e grisalhos, olhos azuis muito vivos, aparentemente saudável no alto de seus 91 anos. Levantava às 5 da matina, pegava a enxada e ia para a roça trabalhar. Às 9 horas, sol a pino, com uma tarrafa no ombro, dirigia-se à lagoa onde plantava arroz. Ali, pescava, e o peixe era sua primeira refeição, cozido em água e sal, acompanhado de farinha de mandioca. A se acreditar no que era dito por tudo que era gente, seria essa a sua única refeição do dia. Era um homem solitário. Sua esposa falecera há mais de 20 anos. Entretanto, sempre alegre, mantinha o coração aberto aos sofrimentos alheios. ?Curava picada de cobra?. E, quando alguém era mordido por cascavel, jararacuçu ou cobra coral, o caminho era procurá-lo. Ele rezava, abençoava, e, gradualmente, a pessoa ia se recuperando. Poderia ser loucura acreditar nisso. Mas os fazendeiros e colonos das redondezas tinham muita fé nas curas do velho Quincas. Consideravam-no um ente de extraordinário poder mental. Um dia ? e há sempre um dia em que as coisas não dão certo ?, apareceu um frade franciscano na cidade vizinha. O tio Quincas pediu confissão. O reverendo ouviu sua história e ficou bravo. Curar picada de cobra??!! Só Deus pode curar. Isso é coisa do demônio, bruxaria, feitiçaria! Não concedeu absolvição e, sem absolvição, ele iria direto para o fogo do ?inferno?. O frade foi incisivo: não o perdoaria, enquanto não abandonasse a maléfica prática. Como temia os castigos do céu, o ancião abandonou as ?curas?. Um desastre para as pessoas da região. A parapsicologia tenta explicar curas espirituais, premonições e as profundas influências do psíquico sobre o físico. O que sei, é que o tio Quincas fez muita falta quando morreu. Creio que o leitor não vai acreditar, mas esse era fato corrente na região onde nasci.

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