Opinião
E o mestre armorial entra para a hist�ria
Ele, quando provocado, fazia questão de dizer que havia nascido na cidade da Paraíba, pois nunca aceitou de bom grado o novo nome dado a sua urbe natal. Seu pai, João Suassuna, por sua vez, havia sido assassinado também por questões políticas num crime que antecedeu ao homicídio de João Pessoa, este inimigo daquele. Ariano nasceu no Palácio do Governo, no dia 16 de junho de 1927. Seu pai era, naqueles tempos, governador da Paraíba. Encerrado o mandato no ano seguinte, João e Cássia, juntamente com a família, passa a residir no Sertão paraibano. Em 1930, o ex-governador é assassinado em decorrência da radicalização política paraibana, fato que marcaria definitivamente seu filho de três anos. Anos depois, Ariano ambienta-se na capital pernambucana e de lá irradiou para o Brasil e para o mundo os valores e orgulho do ser nordestino. Como nenhum outro personagem, soube entender e ensinar as raízes de uma região tão bela quanto sofrida, fundindo o regional e o universal. Lutou incansavelmente pela integridade da cultura popular do Nordeste, convertendo-se em seu arauto, em seu defensor radical. Radicalismo intrínseco, visceral, consciente e construtor, impermeável às pressões descaracterizadoras de quem quer que fosse. Fez-se personagem de sua causa, espalhando em suas aulas-espetáculos a alma e o coração da cultura nordestina, apresentando-a como parte indissolúvel da personalidade brasileira. Num de seus primeiros livros, Fernando e Isaura, uma ambientação da tragédia Tristão e Isolda, escrito em 1956 e permanecido inédito até 1994, localizou seus personagens nas alagoanas margens do São Francisco, passeando os dramas clássicos pelas cidades de Piranhas, Penedo e chegando a São Miguel dos Campos. Há poucos anos, recebeu, com muita justiça, (também) o título de Professor Honoris Causa da Universidade Federal de Alagoas. Apesar da natural enxurrada de artigos e avaliações por conta de sua morte, ontem, a magnitude da obra de Ariano Suassuna ainda não foi adequadamente analisada. Até porque a emoção da hora, por melhores que sejam as intenções, embaralha as ideias. Hoje é dia de homenagens ao magnífico mestre. Amanhã será outro dia, momento de começar as avaliações sobre o gigantesco tributo legado por Ariano Vilar Suassuna ao Brasil. Em resumo: Ariano morreu. Viva Ariano!