Opinião
OUSAR MUDAR, OUSAR VENCER
Os nostálgicos de 1933, que resistiam à profissionalização dos jogadores, parecem redivivos numa legião de diletantes a pregar que o problema do futebol é ter virado negócio. À parte a lição da Economia Política de que neste sistema econômico tudo tende a ser mercadoria, o problema não está no trato mercantil do esporte, mas na gestão do negócio. A recente derrota da Seleção, perdendo sua segunda Copa em casa, reanimou o debate acerca da estrutura do futebol brasileiro, suas virtudes, deformidades e potencialidades. Os diagnósticos da crise e as propostas de mudança em geral carregam a mesma paixão do jogo em campo. Daí serem necessários reflexões, estudos e prognósticos à altura da grandeza que o esporte alcançou, com vistas não ao entesouramento mas para suporte e projeção do futebol arte vitorioso que nos distinguiu no mundo. Como é comum desde o fracasso das capitanias hereditárias, primeira concessão à iniciativa privada em solo brasileiro, os ventos da mudança novamente sopram na direção do Poder Público. De fato, o Estado tem uma mão visível na bem-sucedida organização do aparato esportivo, a começar da criação das ligas no início do século 20. A reforma neoliberal introduzida pela Lei Pelé em 1998 reduziu a participação do governo na estruturação do esporte e enfraqueceu os clubes, ao desestimular o investimento na formação de atletas. Jogadores, cronistas, e ainda mais os torcedores, clamam por regulamentações que dinamizem a economia do futebol para projetá-lo novamente como elemento-chave da identidade nacional. O diagnóstico da situação e as políticas públicas a serem gestadas ainda estão em andamento, mas entre as iniciativas prioritárias está o fortalecimento dos clubes. O desafio é torná-los bem administrados, fortes, lucrativos, capazes de conter a diáspora dos craques para manter o melhor futebol do mundo como um tesouro cultural que orgulha a Nação. O jogo praticado no Brasil já não fascina o planeta. Os times grandes não fazem excursões, por falta de calendário e atrações na equipe. As partidas não são transmitidas além-fronteiras, ao menos na dimensão das inglesas, por exemplo, levadas por oitenta redes de TV para quase todos os países filiados à Fifa. Os dois maiores clubes da Espanha têm nas redes sociais dez vezes mais fãs (aproximadamente 100 milhões) que os dois brasileiros mais populares (não chegam a 10 milhões). O lucro da venda de jogadores parece gerar uma acomodação generalizada.