Opinião
Vitaminas psicol�gicas
JOSÉ MEDEIROS * Nesses tempos de preocupações e de angústias, a indústria editorial tem dado uma ênfase especial à literatura de ?auto-ajuda?, que condensa conselhos e orientações para uma vida melhor. Abordam temas do cotidiano: relacionamentos, felicidade, aprimoramento pessoal e profissional. Ensinam a parar, pensar e reavaliar a vida, sempre que as coisas não caminham bem. Virou regra a afirmação de que o sucesso sempre exige a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa. Quando ocorre um fracasso deve-se reconhecê-lo, reavaliá-lo e dele tirar lição para prosseguir. É necessário coragem para superar os obstáculos que estão sempre a nossa frente. Quem pode duvidar dessa sabedoria? Muitas pessoas acham que não precisam de auto-ajuda, são fortes e superiores, têm harmonia física e espiritual. Julgam-se os ?Hércules? ou ?Sansões? da compleição física, os ?Freuds? do equilíbrio mental. Pode parecer assim. Na prática, entretanto, ao primeiro grande embate psicológico a que são submetidas, a estrutura física desmorona, o equilíbrio mental sofre desgastes. Instalam-se pessimismos, desilusões, angústias e depressões. Dificilmente, alguém pode dispensar algum tipo de apoio nos momentos difíceis de vida. Nesses instantes uma palavra amiga, um gesto de amizade, o consolo da solidariedade, são da maior importância. Um bom livro, também. Quando estudei Medicina, não havia a disciplina Psicologia no currículo. Gradualmente, as faculdades foram incluindo estudos sobre esse tema, reconhecendo as profundas influências do psíquico sobre o físico. O doente é um ser uno: corpo e mente, físico e espiritual. Alguns anos depois de formado participei de um curso de Psicologia Experimental, que condensava noções de psicologia de interesse prático. Esse curso deu-me um novo enfoque no modo de ver os fatos: não só a doença, mas, principalmente, o doente, seus problemas e o meio social em que vivia. O professor repetia: doente não é proveta, nem tubo de ensaio de laboratório, onde são derramadas substâncias químicas esperando um automático efeito de resposta. No doente, a eficácia do medicamento depende das reações orgânicas e também do equilíbrio emocional e espiritual. É necessário nunca deixar de aplicar injeções de confiança, de ânimo e de incentivo. Ele recomendava: quando tratarem doentes hospitalizados em estado grave, nunca deixem de ensinar-lhes certas palavrinhas mágicas, que têm força de remédio, ajudam na superação da moléstia, servem de talismã, de bálsamo e de símbolo. Entregava cartões com as expressões: ?Eu vou vencer, vou me recuperar, vou sobreviver; tenho fé em Deus, vou recomeçar minha vida e aproveitá-la intensamente?. Daí em diante, ensinei aos doentes mais graves essas frases, dizendo acreditar nelas. Entretanto, fazia uma recomendação: não fique repetindo na presença de pessoas estranhas, poderão pensar que você está ?tantã?. Certa vez, encontrei um dos pacientes cercado de familiares. Meu primeiro pensamento foi: será que ele piorou?. Nada disso. Sua família estava reunida, de mãos dadas, contrita, repetindo as frases da psicologia. O rosto do enfermo refletia um estranha expressão de êxtase espiritual. Comovi-me até as lágrimas. Palavras agradáveis e sorrisos sinceros são remédios, vitaminas psicológicas de estranho poder. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE SAÚDE E DE EDUCAÇÃO