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Opinião

Um ano diferente

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EDUARDO BOMFIM * Este ano foi endiabrado, travesso. Daqueles que ficam na memória popular. Dizem que Iemanjá sorriu e todos os santos católicos, em sincrética cumplicidade, fizeram uma corrente contra o sofrimento de um povo. O futebol brasileiro reapareceu em toda a sua plenitude e genialidade, nas pernas, cabeça, espírito de um time de garotos debochados, irreverentes, sem vedetismos. O Santos brilhou e encantou de alegria e êxtase todos nós. O Brasil torceu pelo time da Vila Belmiro, ou melhor, ele conquistou a nação. Sedução total, fulminante. Os cronistas esportivos, com os olhos rútilos, vaticinaram: o Robinho lembrou Garrincha em seus melhores momentos, desmoralizando os zagueiros adversários, sem um pingo de maldade. Já o Diego é um estilista da bola e o outro menino, o Fábio Costa, uma muralha da China no gol. Houve quem afirmasse que a ?nação corintiana? ao chorar, era um misto de tristeza e deslumbramento para com o adversário. Pelo que se viu nas ruas, bares, em todos os cantos, a imensa nação do Corinthians reduziu-se, diante da maré de solidariedade ao Santos, às dimensões do minúsculo principado de Mônaco. Parece que o brasileiro amanheceu o século XXI, assim, meio determinado. O grande Pelé afirmou que nossa seleção encontrava-se bem longe das oito melhores do mundo. Palavra de rei. E o que aconteceu? O povo nem aí para o que sua majestade achava ou deixava de considerar. Queria o pentacampeonato e pronto, tá acabado. Empurrou a Seleção para a vitória, acreditou nela, encheu de moral os nossos craques. Daí, não satisfeito, combinou nas casas, bairros, cidades, colégios, favelas, fábricas e repartições federais ou não, que o presidente poliglota, sociólogo e outras coisas mais, além dos seus partidários, tinha que encerar sua nefasta doutrina que perdurou oito anos. Não deu outra, massacre eleitoral indiscutível, inapelável. Sem direito a explicações: vejam, não é bem assim, etc. e coisa e tal. Pressentia-se, anunciava-se a determinação do cidadão, que levou a vida com a mesma naturalidade e saltando as pedras no caminho, como poetizou Drumond, esperando a hora fatal do pênalti, ou melhor, das urnas. O nosso povo resolveu que era chegada a hora de sonhar de novo. E realizar os seus sonhos. Dizia Carlos Lessa que o ser humano não poder deixar de ter sonhos. Ele surta. Assim também se passa com uma nação. O povo consagrou Lula. Mas a verdade é que a população votou fundamentalmente em si mesmo. Em sua auto-estima, na valorização dela mesmo, em seu amor próprio e de sua pátria. O futuro presidente afirmou em seu primeiro discurso, após a vitória, que um novo país estava nascendo. É o seu compromisso maior, dever impostergável para com a nação e os brasileiros. Olha lá hein?... O povo anda impossível. (*) É ADVOGADO

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