Opinião
ESTRANHA HOSPEDARIA
Quando tomei conhecimento da tragédia que levou Eduardo Campos, o choque me remeteu a outra, muito semelhante, ocorrida quando um acidente de avião no Sul do Pará,em 1987, vitimou então outro jovem e promissor político pernambucano:Marcos Freire. Freire tinha um perfil semelhante: jovem e da ala dos autoproclamados ?autênticos do PMDB?, era, como Campos, muito ligado a Miguel Arraes e a Jarbas Vasconcelos.Foi, como agora,mais uma perspectiva de renovação política que o imponderável da vida não deixou se concretizar. Políticos e a comunidade, sem exceção, lamentaram o desaparecimento precoce dessa jovem e nordestina liderança, que tinha entre suas qualidades, o poder de escutar e negociar, em elevado nível; coisas tão difíceis na política quanto na vida de um modo geral. A morte de um político da envergadura e das possibilidades de Eduardo Campos, muito empobrece nosso quadro político, para o presente e para o futuro. Pode-se entender a frustração daqueles que depositavam nele suas maiores esperanças, no axioma de Virginia Woolf :?O efeito da morte sobre aqueles que continuam vivos é sempre estranho, e muitas vezes pela destruição de desejos inocentes?. O trágico desaparecimento de Campos tem nessa eleição, a natural substituição em Marina Silva, a não ser que interferências estranhas à sua coligação se interponham. Sobre desaparecimentos precoces e inesperados, o imponderável da vida, no Brasil, diariamente, entre acidentes de trânsito e violência, são trezentas as vítimas fatais.Muito acima de qualquer conflito no Oriente Médio. Dentro desta realidade: ao sair de casa de manhã, ninguém pode garantir que retornará integro à noite. Por que então, não refletimos antes de praticarmos alguma ação? Poderemos prejudicar alguém?Se pudermos ajudar, por que não fazê-lo? Quantos, do nosso conhecimento, foram os que partiram inesperadamente? Mario Quintana,tinha essa questão entre as suas maiores obsessões, e lhe dedicou entre outras, a poesia abaixo: ?Esta vida é uma estranha hospedaria/De onde se parte quase sempre às tontas/Pois nunca as nossas malas estão prontas,/E a nossa conta nunca está em dia?.