Opinião
O TONEL DA DENAIDES (1)
Ações tendentes a interromper o fluxo corriqueiro da corrupção produzem, nos respectivos agentes, o sentimento de absoluta inadequação individual à realidade concreta da comunidade impregnada por esse desvio de conduta. Esses indivíduos sentem a dor da inaceitação, no seio do grupo social onde estão inseridos, veem-se frente a frente com a sensação de não pertença. Não se achar pertencido pela comunidade onde se vive traz consigo os fantasmas da solidão, da incompreensão e do trabalho sem resultado útil. O ser que não se curva à corrupção parece ser vítima da mesma pena imposta às Denaides. Diz a mitologia, que as Denaides eram irmãs e mataram, por vingança, seus maridos na noite de núpcias, por essa razão, receberam, por castigo eterno, a pena de encher um tonel sem fundo. Sinal de trabalho infinito, exaustivo e sem resultado. Ao menos, o castigo lhes foi imposto em retribuição à prática de um ato socialmente reprovável, valorado como negativo para o bem-estar e equilíbrio do grupo social. A sociedade precisava ser estimulada ao crescimento e à pacificidade, era a semente do desenvolvimento dos valores humanitários. Nas sociedades vitimadas pelas desigualdades, porque geridas de modo injusto relativamente o foco de respeito pelas leis, especialmente, à norma fundamental de respeito e valorização da pessoa humana, o trabalho por uma sociedade mais igual, é sinônimo de exposição à sequenciados golpes à imagem, interna e externa desses operários. Trabalha-se exaustivamente por essa causa e os resultados parecem não se concretizar. A sociedade permanece desigual. Trabalhar contra a corrupção é assentar tijolos na obra do edifício da pacificidade e crescimento social. Esses trabalhadores não dão justa causa para punição ou inaceitação, mas ela vem mesmo assim. A punição é exatamente a mesma das Denaides, mas a causa é exatamente oposta. A mitologia pune às deusas, pelo crime que cometeram, como forma de estimular a cultura da paz e do desenvolvimento individual e coletivo. Hoje, a legislação e a filosofia do direito também buscam esse mesmo objetivo, mas a vivência do dia a dia tem regras menos progressistas. Os que trabalham para interromper o curso da corrupção são penalizados justamente por trabalharem para concretizar os valores humanitários.