Opinião
ALEGRIA E TRISTEZA
Os versos da canção popular brasileira imortalizados pelo compositor Vinicius de Moraes proclamaram: é melhor ser alegre que ser triste/ alegria é a melhor coisa que existe/ é assim como luz no coração. O ?Samba da Benção?, de sua autoria, ergueu uma imperiosa condição ? mas pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ é preciso um bocado de tristeza/ senão, não se faz um samba não. A ligação da alegria com a tristeza possui legendário reconhecimento universal. O poema do uruguaio Mario Benedetti chamado ?Alegria de la tristeza ? fala da existência de uma alegria inesperada no clima da tristeza, advinda do privilégio de se vivenciar intensos sentimentos. A escritora Martha Medeiros fala do fenômeno, dizendo ser confuso mas um alento para todos nós. Num mundo de tantos apelos e dramas, todo sentimento será bem-vindo. Mesmo que não represente uma euforia, um gozo, um entusiasmo, e seja uma melancolia. Sentir alimenta, ensina, faz caminhar, forma a base de todas as conquistas. Ao ser entrevistada agora por um grupo de jornalistas, num encontro crítico, a encantadora e renomada escritora gaúcha reacende o papel da tristeza. Declara ser a tristeza mais real e consistente do que a alegria. Na atualidade, no entanto, a internet e as redes sociais divulgam amplamente a alegria de viver. Seus titulares revelam registros pessoais de forma espontânea. Mostram todos os momentos e os lugares de suas descobertas e encantamentos. A existência humana, na busca de felicidade, se defronta com situações adversas e episódios redentores. Atravessa esses instantes com rebeldia e inquietações libertadoras. Habitua-se à alternância dessas emoções, com a compreensão advinda dos ensinamentos e dos caprichos do destino. Cada ser humano vive a sua própria história, através de diferentes conjunturas e reações. Todos são envolvidos pelas fragilidades e pelos impulsos de realização. Marcas das conquistas e das interrogações de todos os caminhos. Os sentimentos da alegria e da tristeza se refletem na conduta coletiva, ao vivenciar o sabor da vida, a um só tempo amargo e doce. Fernando Pessoa, com genial sabedoria, reconheceu a canção dos povos tristes como sendo alegre e a canção dos povos alegres como possuidora de uma alma triste.