Opinião
UMA ESPERAN�A QUE N�O MORRE
Tudo corria bem na vida de uma família de minha amizade. Os filhos eram bem preciosos, queridos por todos e correspondiam ao esforço que faziam seus pais para educá-los sadios física e emocionalmente. Entretanto, raramente há felicidade completa. Há versos poéticos que dizem: ?Quem passou pela vida em brancas nuvens / e em plácido repouso adormeceu / quem não sentiu o frio da desgraça / quem passou pela vida e não sofreu / foi espectro de homem, não foi homem / só passou vida, não viveu /?. Repentinamente, um acontecimento mudou a vida da família. A mãe vinha observando mudanças no comportamento do filho mais novo: mau humor, desleixo no vestuário, agressividade, desinteresse pelos estudos. Nada tão esclarecedor que a fizesse pensar que ele estava usando drogas. De repente, D. Emilia recebeu uma notícia brutal: o filho estava internado num hospital vitimado por uma overdose de cocaína. Ao sair da crise, sucederam-se as tentativas para sua recuperação. Conversas francas, conselhos, apoios. A vida da família passou a girar em torno desse garoto de 16 anos, que parecia perdido. Recorreram a psicólogos, psiquiatras, hospitais especializados. Porém, nada deu certo. Um amigo da família lembrou que havia uma ?Fazenda da Esperança?, que realizava tratamentos para tóxico-dependentes, com milagrosos resultados. Conseguiram que ele fosse incluído nesse programa. Um ano depois ele voltou são e salvo. Essa entidade se destina a salvar jovens, muitos deles, dependentes de drogas e marcados pela violência e, muitas vezes, pela criminalidade; encontram na ?fazenda?, uma oportunidade de recuperação e retorno à vida. Essa tarefa envolve espiritualidade, engajamento em trabalho produtivo, mútuo apoio, boa convivência e reflexão. São palavras que tocam, com estranho magnetismo e sensibilidade. Ao longo do tempo, no exercício da medicina, acompanhei o drama de famílias que têm filhos que foram tragados pelo mundo cruel das drogas. Vencer esse drama é vitória inigualável. Mesmo que seja uma batalha renhida, jamais se poderá perder o fio da esperança. Dostoiévski, escritor russo, que passou anos na prisão, ao sair escreveu em sua obra Recordação da Casa dos Mortos, estas palavras: ?À liberdade, à vida nova, à ressurreição dentre os mortos, inefável minuto?. São fios de esperança que não podem perecer. A vida é luta renhida. Uma família de minha amizade é um exemplo. Reuniu-se em torno dessa luta pelo garoto de 16 anos. E a vitória chegou, afinal.