Opinião
DESENVOLVIMENTO E PRESERVA��O
Duas forças antagônicas que não conseguem encontrar um ponto de equilíbrio. De um lado, entendemos que o desenvolvimento se impõe pela sua abrangência social e econômica. A preocupação com a preservação detona o crescimento, impõe limites, engessa a economia. Quando falamos de desenvolvimento, olhamos, geralmente, para o mundo vertical e o movimento vertiginoso das hostes em debate diário na paisagem urbana. Há mais de um século, isto é a noção exata do que se passou a chamar de mundo moderno. Em meio a esse cenário, o conceito de preservar parece romântico e contemplativo. O bairro de Jaraguá é um desses lugares preciosos fadados à contemplação. Próximo demais ao centro da cidade e vizinho de bairros nobres, possui um conjunto de edifícios antigos que se reportam ao surgimento do burgo e ao desenvolvimento da capital alagoana. Jaraguá nunca foi um bairro residencial. Desde sua origem como entreposto de despacho aduaneiro, foi ponteado de prédios para atender aos negócios bancários ou comerciais. Um centro financeiro que chegou ao século 21 com a mesma expectativa de abandono do terceiro quartel do século 20. A revitalização devolveu-lhe certo brilho que se apagou à medida que foi sendo abandonado pela segurança pública. Jaraguá morre a cada final do dia, quando o sol se põe e os que ali trabalham vão para casa. A realidade do bairro é algo que só depois de quatorze anos que aqui estou, diariamente, venho entender: sem o desenvolvimento, Jaraguá nunca será preservado. As invejáveis fachadas de seus prédios ocos irão cair, mais cedo ou mais tarde. Os vizinhos indesejáveis se apoderarão mais e mais dos espaços vazios. E o comerciante, o empregador, o fomentador de riquezas se vai. Há dois anos, quando estive em Portugal, observei que a arquitetura urbana de Lisboa sobrevivia graças à verticalidade de edifícios plantados no arcabouço da fachada e explodiam magnificamente em vidro pelo teto. Era uma solução brilhante para manter a leitura arquitetônica da paisagem urbana sem impedir seu crescimento. Jaraguá precisa, urgentemente, de soluções práticas que possam viabilizar o espaço urbano inútil. Dar ao centro financeiro da capital uma vida diuturna, humanizada pela presença de moradores. Permitir que o bairro, por si mesmo, escolha seu destino: a vida ou a morte.