Opinião
O PRAZER DE VIVER
Do poeta italiano Dante Alighieri, autor da A divina comédia, é contada a história de seus sofrimentos espirituais, que, passados tantos séculos, são diagnosticados como possibilidades de uma síndrome depressiva. Ele vagueava, numa noite tempestuosa, através de densa floresta, sob chuva incessante; de repente, encontrou-se diante de um mosteiro. Bateu, desesperadamente, à porta. Um dos monges entreabriu-a, temeroso, e perguntou ao estranho viajante o que ele desejava. O poeta respondeu com duas palavras: ?Quero paz?. Festejado como um dos melhores poetas da história da humanidade, não conseguiu viver em paz consigo mesmo. E, naquela época, não havia a agitação das cidades nem as correrias para vencer o dia a dia atribulado da vida moderna. Na atualidade, as palavras estresse e depressão entraram no vocabulário habitual da maioria dos viventes. É comum ouvir-se: ?estou estressado, estou depressivo, fulano entrou em depressão?. Sabe-se que o homem é o único animal capaz de ajudar o próprio desempenho biológico, através da maneira como vive, pensa e sente. A saúde, na maturidade, depende dos cuidados que se teve na juventude, e, por sua vez, uma velhice saudável dependerá de como foram exercidos esses cuidados durante a maturidade. Recentemente, contaram-me o episódio de um empresário que enriquecia a cada mês e estava dominado pela alegria do sucesso, tirania do trabalho excessivo e preocupação com o desempenho. O telefone não parava, ele vivia 14 horas no escritório. A filha telefonava, diariamente, e dizia: pai, venha almoçar comigo, a gente conversa, o senhor se distrai com os netos. A resposta era invariável: não posso, estou muito ocupado. E a filha retornava: pai, vá ao médico, faça os exames de rotina. Ele respondia: não tenho tempo, não posso largar o escritório. Alguns dias depois, foi acometido por um enfarte fulminante e morreu no hospital. Tinha apenas 39 anos. Responsável pela própria infelicidade, a bem da verdade. As células do organismo parecem refletir os pensamentos, sentimentos e angústias das tarefas diárias. O desespero, a desesperança, a depressão, aumentam o risco de ataques do coração e do câncer, encurtando a vida. Em sentido contrário, a alegria e o prazer de viver ajudam na manutenção de uma vida saudável. A vida não vale pela extensão de meses e anos e sim pela quantidade como é vivida. O corpo humano sendo uma máquina bioquímica, como todas as máquinas, desgasta-se. Ninguém escapa à devastação causada pelo tempo. Porém, cuidados fazem com que as pessoas vivam mais e possam viver de maneira melhor.