Opinião
Democracia direta
Normal seria, ao que parece ao juízo lógico, que à medida que fosse envelhecendo, a democracia fosse cada vez menos uma questão relevante. Surpreendidos pelas manifestações de Junho, porem, os candidatos as majoritárias de 2014 inventaram a necessidade de discutir o que não precisa ser discutido. Mais democracia se tornou um mote generalizado, mas o que quer dizer? Se a intenção for encurtar a distância entre as vontades do eleitor e as tomadas de decisão, temo pelo nosso futuro, largado em nossas próprias mãos. O Brasil da democracia direta seria assim: 86% das pessoas acreditam que quem não é religioso não pode ser boa pessoa. Se o povo acreditar que isso vale também para quem não tem samba no pé, como diz o ditado, eu seria o maior dos párias. Seria também um país onde o crime e o uso de drogas seriam reprimidos duramente. O que não é ruim no âmago, acredito, mas poderia tomar rumos medievais na forma. Tendo em vista a recente moda de linchamentos, não duvido que sob o julgo da vontade popular, nos tornássemos uma terra de cortadores de mãos dos suspeitos de roubo, como recentemente o fez sem arrependimento um fazendeiro. Não seria um bom lugar para os mais pobres. Os sindicatos não existiriam, uma vez que mais de 50% da população acredita que eles servem apenas para fazer política. O Bolsa Família e o SUS deixariam de existir, pois a maioria também acha melhor contratar serviços particulares e depender o menos possível do governo. Na economia, a urbe prefere um governo interventor e estatista. É o que diz o IBGE. Um país com economia controlada, que não respeita as liberdades individuais e repressor com requintes de violência judicial, não sei não, mas acho que isso não nos deixaria mais próximos dos países desenvolvidos, e sim do Irã, e congêneres. A lição é que a democracia indireta, efetivada através do filtro de autoridades responsáveis vem, no fundo, nos tornando o que queremos ser, mesmo que pensemos o contrário. Mesmo em sociedades mais escolarizadas, é difícil para o cidadão ter a visão distanciada necessária para governar. O estado mais rico dos EUA, a Califórnia, está quebrada por excesso de gastos advindos de plebiscitos bem intencionados. Conselhos populares, contanto que apenas consultivos, não seriam nenhum grande problema, o inferno seríamos nós, decidindo a vida dos outros.