Opinião
VENTOS DE LIBERDADE
A questão da liberdade sempre foi um imenso desafio. Mesmo na Grécia clássica, berço da filosofia e dos fundamentos, que ainda hoje inspiram as democracias ocidentais, a escravidão fazia parte de seu status quo. O Império Romano que dominou por séculos a Europa, inapelavelmente, escravizava os povos dominados. Os habitantes da Gália, hoje França, resistiram bravamente à dominação, o que ainda hoje pode ser apreciado no Asterix. A faceta perversa da natureza humana globalizou-se a partir das grandes navegações e dos descobrimentos do Novo Mundo, com intermináveis e férteis terras pedindo braços para ará-las e torná-las rentáveis, e a mão de obra escrava trazida da África negra, aí, encaixou-se cruelmente. A escravidão e seus desdobramentos, como a guerra civil norte-americana, foram motivo de muitas obras da melhor literatura e do melhor cinema. Recentemente, duas delas abordaram o tema consistentemente: uma é Liberata: a lei da ambiguidade, de Keila Grinberg, um presente carinhoso de meu filho Marcel Davi, que descreve a luta, afinal vitoriosa, de uma escrava negra, para conseguir sua liberdade, via judicial, no Brasil escravocrata do século 19. Obra recente e inspiradora, é A Presença Negra em Alagoas, de Douglas Apratto e colaboradores. O notável historiador narra com sua primorosa objetividade a saga do negro nas Alagoas: sua presença, junto com o homem branco, desde o início da criação da colônia e a sua contribuição perene e inestimável em todos os ramos da nossa cultura. Descreve a luta dos oprimidos em busca da ansiada liberdade, que estava na maioria das vezes nas matas, em forma de quilombos, como o dos Palmares de Zumbi, que ocupou grande parte do território alagoano. Descritas estão outras grandes figuras da negritude alagoana, como Rodrigues Melo, o primeiro promotor negro em nossa terra e um dos fundadores da Academia Alagoana de Letras. Eclético, escreve sobre Odete Pacheco, radialista; Zumba, pintor; Epaminondas e Silva ?cão?, jogadores de futebol, no que recordei de Clóvis, atacante do CSA, que caía muito e levantava sempre rindo. Professor Douglas deve ser o chamado dos ancestrais que me faz vibrar tanto com o Maracatu de Baque Virado no Carnaval: aquela imponência e aquela música são um recado direto de que a luta pela liberdade, em seu sentido mais amplo, continua.