Opinião
Marina, a morena que se pintou da velha pol�tica
Na canção de Dorival Caymmi, a musa ? brejeira e com sua beleza própria ? se pinta, se maquia, de forma que perde seu elã. Em reflexo dorido, o poeta verseja: ?Marina, morena, Marina ? você se pintou/ Marina você faça tudo/ Mas faça o favor/ Não pinte este rosto que eu gosto/ Que eu gosto e que é só meu/(...)?, desfia sua zanga e diz que não sabe perdoar quando fica zangado. Para muitos fãs da morena que se construiu como militante selvática do PT, posteriormente migrante para o PV, e mais tarde ainda, fundadora do inconcluso grupo partidário ?Rede Sustentabilidade?, uma nova Marina, de faces cobertas por espessa maquiagem, se apresenta sob as luzes da ribalta na fase final das eleições 2014. Para quem achava verdadeiro o brejeiro rosto da antiga Silva, e o considerava só seu, deve estar mergulhado no mais profundo desgosto. Ou a zanga transbordou. Ou, candidamente, sublimou essa metamorfose ambulante, e entrou na roda verde (de dólares?) agora puxada por Dona Neca do Itaú. Que fique claro o direito de Marina Silva mudar de opiniões, cambiar de aliados, de siglas e tudo mais que a democracia disponibiliza para seus entes políticos. Não se trata de crítica eleitoral, pois todo cidadão, toda cidadã tem e deve exercer o direito de, em sendo líder político, fazer as flexões que desejar; e, em sendo eleitor ou eleitora, votar em quem bem quiser. A questão é que a dicotomia ?santo? x ?pecador? na política, aqui e alhures, jamais funcionou, não funciona, nem funcionará conforme rezam as cartilhas dos fundamentalistas da ética etérea. Marina, bem ou mal, é mais uma política profissional. Idêntica a todos os que participam desse campo de luta. A personagem inatacável, acima do bem e do mal, não deixa de existir pela aliança com os banqueiros e com os próceres do agronegócio (antes, hostilizados por ela). Nunca existiu essa Marina mitológica, brotada por geração espontânea das selvas amazônicas e vestal da propaganda natureba. A Marina neoliberal, flexível com o agronegócio, pilotada por banqueiros e defensora da ?independência? do Banco Central, viajante de jatinhos sem proprietários identificáveis, protegida pela maior fatia da ?mídia grande? ? é a apenas a mesma de antes, expressão típica da velha política, só que agora pintada diferente, maquiada para o ?high society?, como se escreveria antigamente. Zangou? ?Sorry, periferia?... diria um saudoso colunista social.