Opinião
ELES CERTAMENTE VIVERAM...
Todos nós, sem exceção, temos pelo menos uma certeza na vida e não me refiro aqui àquelas certezas que ao final não se revelarão assim tão certas. Refiro-me à única e real certeza que temos e que teimamos em deixar para o dia de amanhã, a certeza de que estamos aqui apenas de passagem e que essa permanência nos lega apenas um bilhete só de ida no trem da vida. Aí, chega o momento em que passamos a nos despedir dos amigos com uma frequência maior do que de costume e nos damos conta de que o tempo não para e muitos que conviveram conosco já se foram. Foi assim que me vi no ritual da despedida dos amigos Fred Brotherhood e Anthony Leahy. Com o primeiro, trabalhei e convivi por vários anos e aprendi a admirar seu jeito de ser e sua inteligência privilegiada, mesmo nos momentos difíceis pelos quais passou e pude vivenciar, e dele recebi uma lição de humildade e grandeza que não esqueço. Certa feita, viajávamos juntos para a comarca: ele, o juiz; eu, um promotor jovem e orgulhoso... Interrompidos por uma carroça, o burrico e seu condutor, irritado com aquilo, me apressei a gritar: Tira esta m... daí, que quero passar! Fred olha para mim, e sorrindo me diz: Maurício, o coitadinho está aí porque não tem opção e dá um duro danado para sobreviver... Eita! Em poucas palavras, aprendi que ninguém é melhor do que ninguém, porém você pode ser pior do que os outros se assim o desejar. Já o Anthony, profissional respeitado e conhecido com quem deixei a minha dentuça de lado aos 15 anos, era de uma gentileza e educação contagiantes. Com ele, eu me sentia mais ?lorde? também. Passados os anos, voltamos a nos encontrar para cuidar do mesmo problema em uma filha minha. Depois, quando ela soube da notícia que ele estava muito doente, chorou como se fosse um parente querido e muito próximo. Pronto, sua figura humana ímpar havia cativado mais uma, como fizera comigo e com tantos outros ao longo da vida! Lá no cemitério, me senti um pouco órfão, um tanto vazio e com o peito muito apertado, contendo lágrimas que não julgava correto verter. Pelo visto, continuo sendo um tolo e deveria ter chorado, sim. Me ocorre que Oscar Wilde estava certo quando afirmou que viver é a coisa mais rara do mundo e que a maioria das pessoas apenas existe. Quando penso na vida, agradeço por ter convivido com pessoas tão especiais, cada uma a seu modo, e tenho a certeza de que esses dois não apenas existiram, eles certamente viveram!